quinta-feira, 8 de março de 2007

Apedeuta, noçoguia, molusco, escolha o nome você que lê.

Antes de mais nada preciso admitir uma coisa, pois podem me acusar de nomes e atitudes que não são verdadeiras: eu sempre votei na esquerda, e em todas as eleições presidenciais que ele participou - com exceção da última, em que anulei meu voto - sempre votei no Lula.

.

Dito isso, também quero deixar claro que nunca mais voto em Lula. Sou um dos orfãos da esquerda, aquele monte de gente que tinha uma renca de esperanças de que quando a esquerda fosse eleita, tudo seria diferente, tudo mudaria para melhor, especialmente as questões éticas e sociais; ou seja, eu era (e tomara que tenha aprendido a lição) mais uma besta sebastianista que achava que alguém - ou, no meu caso, alguma vertente ideológica - iria nos salvar dos desatinos políticos, da corrupção, da bandalheira, da canalhice e de tanta coisa que vemos diariamente que nos espezinham, nos humilham e nos reduzem.

.

Dito tudo isso, quero colocar aqui um trecho de mais um brilhante discurso feito pelo presidente, que me permito o direito de chamar de besta completa. Depois comento.

.

"Vamos fazer o combate à hipocrisia no País. Preservativo tem que ser doado e ensinado como usar. Sexo tem que ser feito e ensinado como fazer, somente assim teremos um País livre da aids";-"Não tem como carimbar na testa de um adolescente quando é momento de começar a fazer sexo. Sexo é uma coisa que quase todo mundo gosta, é uma necessidade orgânica do ser humano, portanto o que nós precisamos fazer é ensinar";-"É preciso melhorar a massa encefálica dentro do cérebro para as pessoas compreenderem que as mulheres devem ser respeitadas".

.

Esse trecho é um primor da obra luliana. Não satisfeito em querer "ensinar a fazer sexo", o que por si só já é um arroubo que navega entre a tentação ditatorial e a estultice completa, ele também filosofa sobre necessidades ou desejos (prefiro ver assim, para me diferenciar das feras) inerentes ao ser humano - uma necessidade orgânica. Pobres iogues e monges que se privam dessa necessidade orgânica, provavelmente enlouquecem em seus claustros. Mas como se tudo já não fosse muito, ele ainda pespega essa tirada digna de figurar no "Pérolas do Orkut", querendo melhorar "a massa encefálica dentro do cérebro das pessoas". Isso eu não comento, não posso descer tanto.

.

Me espanta o digno sujeito querer agora que as escolas ensinem sexo aos alunos, se não conseguem sequer ensinar a raciocinar, a fazer contas, a interpretar um texto. Escolas que tem níveis tão ridículos de aproveitamento, agora teriam que se prestar a ensinar "necessidades orgânicas" para seus alunos. Não importa o que pais pensem, não importa a linha educacional das escolas, agora terão que invadir a privacidade e ensinar sexo.

.

Ensinar sexo seguro é uma coisa, isso que esse lunático falou é sandice. E não se trata de preconceito burguês ou segregação de castas ou ranço "daselitez", o que se trata agora é de perceber que o avião está sem piloto. O gracioso batedor de penalti (descalço, suarento e todo amarfanhado, como cabe a um presidente da república) quer saber-se conhecedor de políticas públicas de educação sexual.

.

Boris Casoy diria em seus bons tempos que isso "é uma vergonha". Eu digo que é uma merda.

.

Há braços!

.

.

Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

.

terça-feira, 6 de março de 2007

O quadro


Eis o quadro mencionado no post abaixo: Açougue, de Pieter Aertsen (1551).

Antes João Hélio, agora Alana.

Texto retirado do Blog do Reinaldo Azevedo - http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/
.
Depois de tudo que já soltei aqui, esse texto reforça o que deveria ser a nossa indignação. Como diz o Reinaldo, volto depois do texto.


O Brasil é um açougue. Quem chora por Alana?

Acima (no post anterior), o quadro Açougue, de Pieter Aertsen (1551). Aqui nesse post, primeira página de hoje da Folha.
.
Retrato triste e revoltante estampado na primeira página da Folha de hoje: Edna Ezequiel chora a morte de Alana Ezequiel, 12 anos, sua filha, atingida por uma bala perdida no confronto entre traficantes e a polícia no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, no Rio. Edna traz no pulso o que poderia ser uma profissão de fé, uma aposta, uma crença no futuro: uma pulseirinha com a bandeira do Brasil. Todos os adornos do braço remetem às cores pátrias. Edna traz no pulso um certificado. Não há dúvida de que sua filha morreu no Brasil. O Brasil que você traz no braço, Edna, matou sua filha. Sua pulseira não é um adorno, é um grilhão. “Os grilhões que nos forjavam/ da perfídia astuto ardil...”
.
Revoltamo-nos com absoluta justiça quando uma criança, como João Hélio, é morta, arrastada como foi, descarnada, vituperada, despida de sua pele como quem é expropriado de sua humanidade. Que diabo está acontecendo conosco? Precisamos pendurar o Homem (vai aqui com “h” maiúsculo) nos ganchos do açougue de Pieter Aertsen para nos comover? Já não nos basta mais a morte, tão nossa íntima, tão próxima de nós, tão corriqueira, tão banal. E, sim, é verdade: aquele país da pulseirinha embandeirada se mobiliza menos quando morre um preto pobre do que quando morre um branco de classe média. A esquerda vive gritando isso por aí. Ocorre que ela não quer proteger os negros. Ela os quer como bandeira política. O país que mata a filha de Edna tem cotas em universidades. Os pretos de tão pobre e pobres de tão pretos servem ao proselitismo político; são só um pretexto.
.
Desde o episódio de João Hélio, o que mesmo se fez para combater a violência e diminuir a impunidade? Márcio Thomaz Bastos meteu o nariz (enorme!) no debate apenas para pedir calma: diz ele que não quer uma legislação do pânico. Lula acusou a falta de crescimento econômico dos governos passados. Na sua mente perturbada, os pobres apenas matam. Não, senhor: os pobres e pretos, como Alana Ezequiel, 12 anos, morrem. Morrem em número infinitamente maior do que os brancos de classe média: são reféns do tráfico, foram seqüestrados pela bandidagem, estão sendo chantageados por milícias, foram pendurados nos ganchos pela falta de Estado.
.
Edna não aparece na televisão. Alana não aparece na televisão. Quando um negro aparece na televisão, ele já foi “embranquecido” pela ideologia da contestação. Gostamos é de um certo MV Bill, a que assisti outro dia numa palestra para alunos da Universidade de Brasília, transmitida pela TV Câmara. Disse o homem que era contra o tráfico, mas não contra o traficante. MV Bill... O nosso Santo Agostinho: contra o pecado, mas não contra o pecador.
.
A bala que matou Alana também é a bala da demagogia, da má consciência.
.
.
.
.
Boas questões colocadas por Reinaldo em seu texto, justo ele que é tão acusado de reacionário, "direitão", fascista e outros apodos gentis que lhe pespegam os do outro lado. Ele não poupa a esquerda, e por isso às vezes exagera em seus comentários, mas não se pode negar que sua crítica é pontual e precisa. Afinal de contas, o que aconteceu desde a morte de João Hélio?? Alguém responda isso, por favor!
.
.

Festival Fora do Eixo - invadindo o Eixo!

Quem disse que os miúdos não têm força? Quando se juntam, o estrago pode ser grande. Leia essa:
.
.
Festival Fora do Eixo, um evento fora dos padrões
Festival de música independente agita São Paulo em março

.
.
por Pedro Acosta
da Imprensa Fora do Eixo
.
.
O Festival Fora do Eixo vai agitar as noites de São Paulo de uma maneira incomum. Nada do tradicional modelo de festivais, geralmente presos a um fim de semana e a uma casa de shows. Entre os dias 12 e 18 de março (de segunda a domingo), 19 bandas de todo o país se apresentarão em sete das casas mais importantes da capital paulista. Comum a esses artistas, o fato de não pertencerem ao eixo Rio-São Paulo, com suas grandes empresas de comunicação e entretenimento. Além disso, o fato de superarem essa dificuldade criando música relevante e se organizando em rede.
.
A rede em questão é o Circuito Fora do Eixo, movimento nacional que integra produtores independentes, jornalistas e bandas indies de todo o país. Trata-se de uma grande rede de trabalho em que experiências e práticas são compartilhadas. Foi assim no Grito Rock Brasil, primeiro festival integrado de música independente, realizado durante o carnaval. Em 2007, 20 cidades em 15 estados tiveram suas versões do Grito, adaptando o molde do Espaço Cubo, que já realiza o evento em Cuiabá (MT) desde 2003.
.
Provada a capacidade de intercâmbio entre produtores do Brasil inteiro, o Festival Fora do Eixo é o próximo passo. Em São Paulo há um estabelecido movimento rock e reside na cidade boa parte dos veículos dedicados a esse movimento. Agora, a força e a relevância da produção dos estados fora do eixo serão mostradas na capital paulista.
.
Destaques em 2006, bandas como as mato-grossenses Vanguart e Macaco Bong, a goiana Valentina, a amazonense Mezatrio e a sergipana Rockassetes estão na escalação do Festival Fora do Eixo. Mas também haverá bandas de estados do Sudeste. Afinal, a questão não é geográfica. O que importa é o método e a organização da produção independente em redes de trabalho.
.
Seguindo esse raciocínio, o festival agregará o maior número possível de produtores paulistanos. Nesse sentido, a medida mais importante é realizá-lo em vários palcos. Cada dia do Fora do Eixo acontecerá em uma casa diferente. Desde a tradicional Outs à novata Inferno Club, ambas na Rua Augusta. Passando pelo Vegas (também na Augusta), a Vila Madalena do Dynamite Pub e do Studio SP até a Casa Belfiori, na Barra Funda e o Satva Bar.
.
Ainda com o objetivo de integrar agentes da cadeia produtiva da música indie, haverá, no sábado 17, o Ciclo Fora do Eixo de Seminários. São esperados nos debates representantes de selos, festivais, organizadores de evento, jornalistas, artistas: todos os produtores que devem estar em São Paulo, participando do festival. Na pauta, temas como o próprio Circuito Fora do Eixo, circulação, produção e distribuição de conteúdo.
.
.
PROGRAMAÇÃO
.
Dia 12
Bandas: Montage (CE), Fuzzly (MT) e Johnny Suxx (GO)
Local: Inferno Club
A Partir das 22:00
.
Dia 13
Bandas: Macaco Bong(MT), Mezatrio (AM) e O Quarto das Cinzas (CE)
Local: Casa Belfiori
A partir das 21:00
.
Dia 14
Bandas: The Rockassetes(SE) , Revoltz(MT) e Mandrake (Jaú)
Local: Dynamite Pub
A Partir das 20:00
.
Dia 15
Bandas: Vanguart (MT) e Pública (RS)
Local: Vegas Club
A partir das 21:00
.
Dia 16
Bandas: Valentina (GO), Porcas Borboletas(MG)
Local: Studio Sp
A partir das 22:00
.
Dia 17
Ciclo Fora do Eixo de seminários a partir das 14:00 e Jam sessions a partir das 18:00
Local: Satva Bar
.
Dia 18
Bandas: Zefirina Bomba (PB), Trilobit (PR), Camundogs (AC) e Chilli Mostarda(MT)
Local: Outs
A partir das 18:00
.
.
Saiba mais sobre o Circuito Fora do Eixo http://www.gritorock.com.br/circuito
Assessoria de Imprensa e Comunicação do Festival Fora do Eixo
Jornalista Responsável: Marielle Ramires
Texto: Pedro Acosta
Contato: 65- 9956-0321 / 9919-3806
.
.
.
Depois do esforço hercúleo e muito bem sucedido do Grito Rock, agora o povo junta forças para realizar esse festival em São Paulo. Todo mundo tem a lucrar com isso, mesmo que não goste ou não concorde, porque abre espaços para mais bandas tocarem, abre espaço para quem produz poder fazer bons contatos, enfim, todo mundo lucra quando existe uma união, esforço e bons resultados como esses. Meu copo erguido para esses malucos que vão abrir trincheiras em SampaCity!!
.
Há braços!
.
.
.
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
.
.

domingo, 4 de março de 2007

Conto - Lembranças da Infância

.

O Grito do Inimigo - 134 - Lembranças da Infância
(um conto)
.
.
Ela acordou novamente. Obviamente tratava-se de uma rotina. Levantou-se, espreguiçou-se, escovou dentes, banho tomou, coisas de se fazer pela manhã. Era gerente, e diferente do que se diz, gerente trabalha e muito, e ela trabalhava bastante. Morando sozinha na capital, vivia só, e era de uma independência impressionante. Pragmática, responsável, objetiva, alguns poderiam até chamá-la fria, mas isso era porque se dava pouco a romances e amores. Concentrava sua vida em seu trabalho, e isso era o suficiente para lhe ocupar praticamente todo o tempo que tinha desperta.
.
Sua família havia ficado no interior, e foi com alguma estranheza que recebeu a ligação de sua irmã uma tarde. Seu celular nem sequer registrava aquele número na agenda, e ela ficou um tanto quanto aturdida ao ver que era sua única irmã. Irmã caçula. Sua irmã ainda morava naquela pequena cidade do interior, e algumas vezes havia pedido para vir para a capital, mas ela não autorizava nunca. Não se imaginava com alguém dentro de casa, era muito acostumada a ficar só e a presença de uma jovem iniciando sua vida profissional só iria desestabilizar seus horários e compromissos.
.
Sua irmã havia lhe ligado num momento inadequado, dentro de alguns minutos ela teria uma reunião com a diretoria, onde teria que apresentar seu Relatório de Incidentes Críticos do Processo de Qualidade. Uma das milhões de reuniões que freqüentemente tinha, passava mais tempo em reuniões que andando ou pensando propriamente. Pediu que a irmã ligasse depois, mas ela insistiu, disse que era importante. Foi para sua sala, porque era muito reservada com suas coisas particulares, e sua irmã definitivamente era uma particularidade, que muitos sequer sabiam existir.
.
Sua irmã lhe disse então, que ela e a mãe iam se mudar de casa – coisa que ela ignorava completamente – e nesse processo haviam encontrado uma caixa com coisas da infância dela. Aquilo soou totalmente estranho: “infância”. Lembrava-se vagamente de ter sido criança, obviamente devia ter sido, claro. Todo mundo foi. Mas ela tinha poucas lembranças, ousaria dizer pouquíssimas, e sempre se conformava com isso por causa do acidente sofrido em sua adolescência, onde havia batido a cabeça, e isso era uma explicação plausível para lembrar tão quase nada de ser criança.
.
Por isso o estranhamento. “Minha infância” pensou com algum prazer. Encontrar essa caixa poderia ser bastante interessante, porque ali deveriam haver muitas coisas que a fariam lembrar o que foi ser criança, crescer na família que cresceu, no lugar que cresceu, e empolgada com a idéia pediu que a irmã enviasse a caixa para seu endereço pessoal. Sequer cogitou pedir que a irmã viesse até a capital lhe trazer a caixa, ou que ela mesmo fosse buscar em algum fim de semana. Pediu o envio a cobrar, agradeceu e disse que tinha que desligar. A irmã queria comentar sobre a mudança, mas ficou com o telefone mudo na mão. “Mulher estranha essa minha irmã!” pensou a jovem, e preparou-se para enviar a tal caixa.
.
Foram alguns dias de quase agonia, ela pôde reparar. Ansiosa, aguardava a tal caixa, seus tesouros de infância, suas lembranças perdidas há tanto tempo, e num desses dias de franco desespero pela chegada da tal caixa, uma lembrança pipocou em sua mente: as caixas do tempo. Ela fazia isso freqüentemente durante sua infância, guardava coisas em caixas para abrir depois “de grande”, parecendo antecipar sua memória falha. Colocava fitas K7 para gravar e ia passando de rádio para rádio, rapidamente, sem ficar muito tempo em rádio nenhuma, para que depois de muito tempo, ao ouvir as fitas pudesse se lembrar das propagandas e vinhetas e músicas que as rádios tocavam em seu tempo de menina. Caixas do tempo!! Deveriam haver várias nessa caixa grande, e engraçado pensar assim, porque a irmã não havia falado o tamanho da caixa, mas ela a imaginava grande e recheada, uma caixa que precisaria de dois carregadores para trazê-la até o quinto andar, uma caixa que cabia uma vida de lembranças.... tinha que ser grande.
.
Foi uma decepção quando recebeu o pacote. Não era muito maior que uma caixa de sapatos, e teve que se resignar que sua infância então não voltaria à sua memória em tanta quantidade, mas já estava feliz, fosse o tanto que fosse.
.
Programou-se para abrir a caixa. Conseguiu uma folga no trabalho, ia ficar o dia todo em casa, em retiro, em busca de si. No dia anterior dormiu cedo com o auxílio de duas cápsulas brancas, tamanha sua ansiedade, e ao acordar percebeu que era um dia mais bonito. Colocou uma confortável e nova calcinha branca de algodão, uma camiseta folgada também branca, tomou um café reforçado; e a todo tempo olhava para a caixa sobre a mesa. Foi um ritual.
.
Sentou-se somente depois de abrir todas as janelas e sentir o vento quente que vinha dos morros. Sentou-se e colocou a caixa na sua frente. Finalmente ela ia conhecer a criança que tinha sido. Abriu a caixa com tamanho carinho, que fosse um pergaminho não teria se desmanchado em suas mãos delicadas. Viu as fitas K7 e em desespero lembrou-se que não havia mais nenhum toca-fitas em sua vida, contemporânea que era, só haviam CD Players e MP3 players. Amaldiçoou a tecnologia moderna, amaldiçoou os avanços conquistados pela ciência de áudio, amaldiçoou e colocou as fitas cuidadosamente ao lado, no sofá. Teria outra oportunidade para ouvi-las, sabia disso. Respirou fundo, resignou-se e continuou sua jornada.
.
A próxima coisa a encontrar foi uma revista. Era uma revista guardada dentro de um envelope plástico, com muito cuidado e entre encantada e curiosa, reparou que era uma revista esportiva que falava da conquista do Tri Campeonato de Futebol pela seleção nacional. Folheou reportagens que falavam da vida e do cotidiano dos jogadores, com fotos ilustrativas e muita alegria pela conquista da Copa. Não saberia dizer porque uma revista de futebol estaria guardada em suas coisas, afinal de contas não entendia nada de futebol, e sem sequer entender, sentia até mesmo uma certa repulsa pela idéia do esporte bretão. Ficou olhando aquela revista amarelada, imaginando que poderia lhe trazer alguma lembrança, mas nada aconteceu. Outro suspiro resignado, não estava acontecendo como ela imaginara.
.
Abaixo da revista existia um ingresso de cinema, mas como qualquer ingresso de cinema não havia nenhuma inscrição sobre qual filme havia sido assistido, ou qual cinema era aquele. Nenhum sinal lhe saltava a memória, nada lhe surgia, nada acontecia, essa era a verdade. Começava a impacientar-se.
.
Logo abaixo havia uma fita de vídeo cassete. E ficou feliz de não ter vendido o vídeo cassete quando havia comprado o DVD. Finalmente alguma coisa que ela poderia utilizar para buscar suas lembranças. Ficou animada novamente.
.
Colocou a fita no vídeo cassete e sentou-se. O início era uma chiadeira enorme, e as imagens trêmulas a deixaram preocupada pela qualidade da fita, mas logo a imagem firmou-se e ela viu um homem sentando-se em frente a uma filmadora. Ela conhecia aquele homem, sabia disso! Ele buscava sentar-se rapidamente frente a uma filmadora, e parecia um tanto quanto embaraçado. Ela sentiu-se curiosa.
.
Ele começou a falar:
.
“Minha filha, se você estiver assistindo isso, é porque eu tive que ir embora.”
.
Meu Deus do Céu!!! Aquele era o pai dela!!! Como havia esquecido completamente as feições de seu próprio pai. Mesmo não tendo vivido a vida inteira com ele, mas afinal de contas era o próprio pai. A fita continuava.
.
“Infelizmente eu não pude estar com você por muito tempo. Mas eu vou colocar essa fita em uma de suas caixas do tempo – ‘ele sabia das caixas do tempo!’ – e um dia você vai poder me ver e me ouvir. Isso já me consola. Não tenho idéia de quando você vai ver essa fita, mas espero que você já esteja grande, madura, uma mulher feita, com a cabeça no lugar e possa me ouvir até o fim.”
.
Era então o momento certo. Ela era uma mulher feita, com a cabeça no lugar, e mais importante: curiosíssima. Então ele sabia das caixas do tempo dela, que legal!
.
“Você pode se perguntar porque eu vou embora, mas eu tenho que fazer isso. E tenho certeza que vou sofrer o resto da vida por isso, porque você é a minha amada, e eu vou ter que ir embora. E eu quero aproveitar essa nossa conversa... bem, essa minha conversa para te contar das coisas que eu nunca vou esquecer entre nós dois. Nunca vou poder te contar o tanto que eu fiquei feliz quando fiquei sabendo que você ia nascer. Nós éramos pobres, bastante pobres, e eu tive que buscar outro emprego porque ia nascer uma princesa na nossa casa.”
.
Ela começava a sentir-se emocionada. Seu pai, falando pra ela.
.
“Eu trabalhei duro pra você nascer num hospital bom, porque sua mãe sempre teve a saúde fraca, e eu não podia correr o risco de deixar você sofrer alguma coisa em mão de médicos ruins. Por isso eu procurei outro emprego, e isso foi muito bom, porque eu descobri que eu podia ser bom no que eu fazia. Você me trouxe tanta sorte, minha amada, que depois que você nasceu eu comecei a ganhar dinheiro de verdade, muito dinheiro. E nossa vida foi melhorando ao mesmo tempo em que você ia crescendo. Logo mudamos de casa, porque minha princesa não poderia viver naquele bairro onde morávamos. Fomos para uma casa grande, com um gramado enorme, onde criamos dois cachorrinhos.”
.
Oh, meu deus! Estava funcionando!! Gramado... ela se lembrava de um gramado. Ainda era vago, mas certamente houve um lampejo à mera menção desse gramado.
.
“E quando você falou ‘papa’ pela primeira vez. Eu corri pra me esconder e chorar, do tanto que eu fiquei feliz, do tanto que eu fiquei emocionado. Minha princesa falando papa. Eu te amo muito filha, não importa o que digam, eu te amo muito. Você aprendeu a andar rápido, eu sempre soube que você era muito inteligente e você logo estava andando pela casa, com aquelas perninhas gordinhas, com aquele bumbum lindo, correndo pra lá e pra cá, caindo pelos cantos, se machucando, e toda vez que você chorava eu te pegava no colo e te acalmava, e você logo parava de chorar. Eu te dava o dedo pra chupar e isso te acalmava muito. Eu lembro disso...”
.
Ela enchia o olho de água. O pai que ela não se lembrava, falando de sua infância. Ela ainda não tinha muita lembrança. Alguma coisa a incomodava, talvez a falta de informação.
.
“Quando você começou a ir pra escola, minha amada, eu fiquei tão alegre ao te ver com aquela ‘sainha’ rodada, aquela blusa branca bonitinha, de sandalinha franciscana. Gente, você tava tão linda naquele primeiro dia de aula, eu não conseguia parar de te olhar. E te levar pra escola, te entregar pra tia. E ver você indo pra sala, em fila, com seus outros coleguinhas.”
.
Ela não conseguia chorar. Alguma coisa a segurava, e ela sentia o nó na garganta.
.
“Foi nessa época.... foi aí. Eu não sei porque...”
.
O pai ficava visivelmente nervoso na fita. Não sabia o que era que acontecia com ele.
.
“Eu te amo, minha amada. Nunca esqueça disso, viu? Isso é o mais importante, no dia que você for ver essa fita, não esquece que eu te amo muito, mais que minha vida.”
.
E agora ouvir “minha amada” começava a lhe soar desconfortável.
.
“Eu que lhe dava banho, desde que você era um bebezinho. Porque sua mãe não conseguia te segurar, sempre fraca. Fraca. Uma molóide! Eu que lhe banhava. Trocava suas fraldas, colocava talco na sua bundinha linda, na sua chaninha. Nas suas assaduras. Eu que cuidei sempre de você, meu amor, fui sempre eu!”
.
Náusea. Alguma coisa lhe dava náuseas agora. Imagens voejavam na cabeça.
.
“E continuei te dando banho, na sua época de escola. Um dia um amigo do futebol me disse que você ia crescer e ter relação com um homem. Surrei-lhe como um cachorro!! Como dizer isso da minha amada, da minha filhinha?? Pois que você é meu amor. Só meu!”
.
Ela agora chorava.
.
“Por isso eu vou embora, meu amor, porque as pessoas não entendem nosso amor. Não entendem o que nós sentimos um pelo outro. E eu tenho que ir embora. Mas não quero que você se esqueça nunca que eu te amo muito.”
.
E então ela se lembrou. Finalmente se lembrou porque sua infância tinha sido sempre uma mancha na sua memória. Ela se lembrou dos toques dele, dos banhos demorados, dos talcos, das calcinhas novas que ele sempre lhe comprava, e nesse momento sua náusea tornou-se insustentável, e ela vomitou.
.
“Eu um dia quis tentar uma coisa nova, e ao invés de lhe dar o dedo pra chupar, PRA VOCÊ SE ACALMAR, MINHA FILHA!! PRA VOCÊ SE ACALMAR!! FOI SÓ POR ISSO!! Eu fiz de outro jeito, mas você já estava muito assustada. Devia ser aquelas meninas do colégio, te falando besteiras, te ensinando tudo errado. E eu te amando cada vez mais e você ficava mais assustada comigo.”
.
Ela tentou se levantar mas suas pernas não obedeciam tão bem. E ela pareceu entender o porque fugir tanto tempo de relacionamentos, porque os namoros tão curtos, porque o medo de se entregar, porque a fuga eterna do contato, porque o sexo tão desagradável. E a procura eterna de um orgasmo, que nunca vinha. Que nunca veio sua vida inteira.
.
“Meu amor, eu só fiz isso porque você queria. Só fiz o que nosso amor pedia, mas sua mãe um dia viu e não entendeu. Ela ficou com ciúme do amor que nós tínhamos um pelo outro. Ela ficou com inveja do que nós tínhamos. Ela aprontou uma bagunça. Então quando você for ver essa fita, saiba que eu te amo, sua mãe não!! SUA MÃE TEM INVEJA DE VOCÊ, MINHA AMADA!!!”
.
Ela se lembrou do machucado em seu sexo. De um dia uma violação, e ela não havia entendido a dor, a sensação desagradável, a vergonha. E por estranho comportamento da memória que o corpo tem, sua vulva nesse momento parecia se umedecer, e ela se revoltou com o que parecia ser excitação. Mas era sangue. Uma hemorragia que descia lentamente por seu canal.
.
Aquele monstro continuava na televisão, com o olhar cândido de um louco, com aquelas palavras que ela já não entendia mais nada, e por isso então ela havia escondido a maldita revista. Ele adorava aquela revista desgraçada, e ela roubou-a e a escondeu. Ele procurou muito tempo aquela merda de revista, e ela – somente ela – sabia onde a revista estava. Lembrou-se das caixas do tempo, todas as outras, ela havia destruído, não queria se lembrar de nada daquilo quando fosse "grande". Por isso tão pouca coisa, por isso tão poucas lembranças, por isso uma caixa pequena. Sua calcinha branca já manchava de vermelho escuro, suas pernas cada vez mais trêmulas e fracas. O desgraçado continuava falando...
.
“Então eu vou embora, meu amor. Porque falaram que vão me prender e que eu nunca mais vou poder chegar perto de você, e só de pensar isso eu enlouqueço, isso não pode acontecer. Então vou fugir, e vou te procurar um dia. Pode esperar meu bem, porque eu vou te encontrar um dia, e nós vamos nos amar de novo, minha amada. E nós vamos ser felizes!! Eu vou te encontrar um dia!”
.
Ela não aguentou mais. Arrancou a fita atabalhoadamente do vídeo cassete, e a arremessou longe. Tentou se firmar nas pernas, mas ainda era muito difícil, e com dificuldade dirigiu-se ao banheiro. Abriu o chuveiro e ficou debaixo dele, sentindo a água escorrer, por horas. O sangue misturando com a água rumo ao ralo.
.
Seriam dias se limpando se ela não tivesse coisas a fazer. Não conseguiu almoçar, mas logo depois do que seria o horário de almoço dirigiu-se ao centro da cidade, e durante esse trajeto ficava vigiando por sobre o ombro a todo instante. Mudava de calçadas e por vezes parava nas ruas, olhando em volta. Sentia-se vigiada.
.
Entrou na loja, apresentou seus documentos e comprou uma Magnum 480.
.
Quinze balas no pente e agora ela estava pronta pra receber a visita do seu papai.
.
.
.
.
O Inimigo do rei

sexta-feira, 2 de março de 2007

Furto de instrumentos.


Violência urbana, essa é a nossa realidade atualmente. Aconteceu ontem - dia 01 de março - um assalto na casa do Fernando Vinícius, baixista e vocalista da Indigo Blues. Ao chegar em casa ele se deparou com a desagradável surpresa da casa revirada e a falta de alguns de seus pertences.
.
Dentre esses pertences roubados, foi levado esse Contrabaixo Condor Preto, de 04 cordas que está aí na foto de um dos shows da banda.
.
A divulgação busca manter o povo alerta, porque o criminoso vai tentar vender esse instrumento e quanto mais gente estiver atenta à anúncios, propostas de negócios e quetais, mais provável o retorno do instrumento às mãos do Fernando.
.
Como ainda somos os reféns nesse enredo policial, presos em nossas vidas cotidianas e cercados de criminosos, pelo menos podemos nos ajudar e alimentar uma falsa sensação de segurança.
.
Quem souber de alguma coisa, por gentileza entre em contato.
.
.
Há braços!
.
.
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Are you LOADED?

Sim, é isso mesmo! Eu fiquei um mês ou mais longe da minha participação mega-hiper-super-duper especial no Loaded. Não sabe do que eu estou falando? Veja bem, o Loaded - www.loaded-e-zine.com - é um programa de rádio virtual, uma web radio, um e-zine - nomeie como quiser - criado e gerenciado e produzido e cometido por três bandoleiros de SampaCity, o Valter, o Alexandre e o Carlos. Eu confesso que nem me lembro como, mas esses caras me acharam um dia. Devem ter lido algum texto meu na inFernet e - pira pra isso agora! - gostaram! Daí pra pintar um convite para eu participar do programa foi um passo e meio.
.
Eu comecei fazendo minhas participações com a ajuda do Mestre Gustavo "Coffe Maker" Vasquez, que gravava meus áudios em seu estúdio, na época o Manicomial, hoje RockLab. Eu estava gravando participações para divulgar o Bananada, festival de rock independente de GoiâniaTown que acontece em novembro.
.
Foi legal e pelo visto outros malucos gostaram da idéia. Eu fui ficando. Depois de um tempo o Vartão me arrumou um programa para gravar áudio, instalei-o no meu Pc e comecei a gravar diretamente do meu quarto. Isso me deu alguma dor de cabeça, porque os vizinhos (uma vizinha especialmente, eu sei quem é a descabelada) começaram a reclamar. Tá, alguém pode lembrar nessa prosa que eu sempre começo minha participação no Loaded com um grito, um berro, um urro desesperado e cheio de ódio. Pois então, para alguns o fato de eu estar gritando no meu apartamento depois das 23:14 é motivo pra encher meu saco.
.
Pois então, eu sempre procurava uma banda nova para apresentar, falava dos participantes, contava alguma historinha sobre a banda, porque o Loaded é exclusivamente voltado ao rock independente. Centenas de bandas já foram "tocadas" por essa trupe, que de uns tempos pra cá conta com a presença do Serginho, dirigindo - ou tentando - essa loucura toda, e ainda a presença do Lucky Luciano Carioca, que manda suas intervenções diretamente de Floripa.
.
Eu fui nomeado "Interventor responsável pela sucursal Centro-oeste" e venho... ou melhor, vinha desempenhando minha função com galhardia. Até o meu Pc explodir o HD. Eu fiquei um tempão fora do ar, mas estou me preparando pra voltar.
.
E agora chegamos ao motivo desse post. Com a explosão do meu HD eu perdi umas milhares de músicas que eu tinha em MP3 prontas para serem apresentadas no Loaded. Então eu queria divulgar à todos que tem banda ou conhecem alguém que tem banda, que tenham interesse em rolar seu som no Loaded, manda o release com - no máximo - duas músicas em MP3, que eu terei o maior prazer de apresentar sua banda pro mundo. Ao menos a parte do mundo que tem juízo tão pouco que se preste a ouvir o que fazemos. rsrs
.
Manda para meu e-mail, o eduardoinimigo@gmail.com e vamos reiniciar a participação pequizeira nessa balbúrdia querida. Manda no máximo duas músicas porque senão o arquivo fica muito pesado e dá trabalho demais, nós atuamos na lei do mínimo esforço. rs
.
Aguardo seu material!
.
Há braços!
.
.
Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
.