terça-feira, 17 de outubro de 2006

Guerra é Guerra - Decibélica nas ruas!

Até os dentes...

"Panfletos, cartazes, grude: Era assim que a vanguarda roqueira costumava se armar. Não havia poste, latão de lixo ou hidrante que saísse imune às investidas publicitárias de quem queria tocar roquenrol para não tão poucos."

Começa assim o novo texto do Beto Wilson, manager da Revista Decibélica. Com a proposta de enfiar o dedo na cara e meter o pé na porta, ele já conseguiu alguns consensos inesperados. Mas a idéia é mostrar o tanto que tem gente mal acostumada, preguiçosa, lerda, maloqueira, esperando as coisas cairem do céu. Não vão cair!

Vai no http://decibelica.blogspot.com/ e presencia a destruição. Vale a visita!
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há braços!
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Eduardo Mesquita
eduardoinimigo@gmail.com
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sexta-feira, 13 de outubro de 2006

A banda acabou! "DEZENOVE"

DEZENOVE
Incompreensível. Essa era a palavra mais usada quando se referiam ao fim daquela banda. Isso porque ninguém conseguia entender porque eles terminaram a banda, porque separaram e nunca mais se falaram. Mas estou adiantando um pouco a história, vamos com calma.

Você tem ou já teve banda de rock? É uma experiência única e inesquecível. Porque é divertido, é trabalhoso, é suado, é canseira, mas é inesquecível. E é único. Putz, parece que eu não consigo explicar melhor que isso, mas é isso que é a explicação.

Esses caras eram amigos, e um dia se encontraram e em meio a muita conversa fiada e cerveja gelada, tiveram a idéia de montar uma banda de rock. Para ser bem exato, uma banda de punk rock, que era o som que eles gostavam mais de ouvir, e também porque não eram grandes coisas musicalmente, e achavam que o punk rock fosse fácil. Tolos!

Na cidade em que viviam já existia um movimento de rock bastante pesado e desenvolvido, com muitas bandas legais, muita gente trabalhando sério pra fazer o rock ser mais aceito, muitas discussões frutíferas e outras várias discussões estúpidas, normalmente envolvendo gente que se achava dono da verdade e gostava de cagar regra ou criticar de forma grosseira e babaca qualquer um que pensasse diferente. Ou seja, em muitos aspectos era um ambiente propício para o surgimento de mais uma banda. E eles já eram freqüentadores assíduos dos shows e festivais, já conheciam muitas pessoas de outras bandas e foram bem aceitos.

Como seus perfis oscilavam entre paranóicos, detalhistas e meticulosos, eles se dedicaram de forma bem metódica e esforçada para fazer um som que fosse bom, digno, crível e agressivo. Escreveram letras violentas, fizeram riffs de guitarra criativos, usaram o baixo de forma brutal e a bateria reta e sem frescuras deixando claro que a proposta da banda era fazer rock, e não fazer gracinha.

O começo foi difícil, como sempre é, e eles ralaram um tanto para conseguir um show para tocar e mostrar o som deles. Depois de alguns meses de procura e batalha, conseguiram a oportunidade num show organizado por um parente de um deles. Alguns poderiam dizer que eles só foram escolhidos para tocar nesse evento porque o organizador era parente de um dos caras da banda, e isso é o mais óbvio. Claro que só foram chamados por isso! Nunca tinham tocado em lugar nenhum, ninguém conhecia o som deles (o organizador – cuidadoso – havia ido a um ensaio para se certificar que eles não eram um problema grande demais, claro) e então eles só conseguiriam o primeiro show pedindo pelamordedeus ou tendo algum contato bom. Parente de produtor é um puta bom contato, ou não?

Foram tocar nesse primeiro show e estavam em pedaços, nervosos, ansiosos e tudo mais que possa ser creditado a pessoas que enfrentam algo novo pela primeira vez e que será avaliado por outras pessoas. Estavam tensos como cordas de violino, para me valer de um clichê estiloso. As bandas que tocaram antes deles não facilitaram em nada o nervosismo, porque eram bandas muito boas, violentas e que deixaram uma sensação de “que diabos eu estou fazendo aqui” em cada um deles. Mas mesmo com todo o nervosismo da primeira vez, o show deles agradou o público presente, e logo várias pessoas se acumulavam na frente do palco, uma roda de hardcore surgia para garantir algumas escoriações, e eles se sentiram mais tranqüilos. Bem verdade que conseguiram errar muito em suas próprias músicas, mas quem não erra quando está nervoso, não é mesmo? Para completar a noite ainda foram elogiados por uma outra banda de muita qualidade da cidade, e isso os deixou satisfeitos por tudo ter começado bem.

A seqüência é uma rotina para qualquer banda, procurar mais shows, ensaiar bastante, buscar melhorar a composição, criar um estilo. Pelo menos rotina para bandas que querem fazer um trabalho que preste, claro, porque sempre vão existir os que fazem por fazer, e que preferem apostar no “quanto pior, melhor” para justificar preguiça ou incompetência. Vai entender...

Acontece que algum tempo depois, perto de um ano ou mais um pouco, eles foram convidados para tocar num grande festival fora da cidade, numa outra região onde o rock era muito forte e onde tinha uma equipe muito bem organizada e engajada que trabalhava esses eventos e outras iniciativas. Desnecessário dizer que ficaram empolgadíssimos, aquela seria a coroação dos esforços todos que fizeram ao longo daqueles muitos meses. Prepararam um set list fuderozzo, com as músicas mais destruidoras que tinham, mentalizando para fazer um show com raiva, nervozzo e empolgante.

Foram semanas de ansiedade e expectativa, antecipando tudo que poderia acontecer. Foram para o tal show, tocaram e se sentiram muuuito bem. Isso porque o show – apesar de todos os pequenos problemas surgidos – foi bom, mas bom mesmo. E eles sabiam que não haviam tocado tudo que podiam, porque estavam nervosos, porque não estavam acostumados a tocar em palcos daquele tamanho e daquela altura, porque estavam tristemente sóbrios, e mais um monte de motivos. Por tudo isso, sabiam que o show não tinha sido um dos melhores que já haviam feito, mas ainda assim conseguiram deixar uma boa impressão no público. Várias pessoas gostaram bastante, e tudo isso e mais o tanto de bons contatos feitos durante o festival, anunciavam um futuro de muito rock para aqueles quatro alucinados.

Na cidade em que moravam os comentários pipocavam e muitos apostavam que iam buscar realizar mais shows fora do estado de origem, quem sabe finalmente lançar um CD cheio ou até mesmo tentar uma turnê européia!! As especulações eram muitas, mas tudo caiu por terra quando chegaram de volta à cidade natal, em um tópico de discussão na inFernet. Eis que surgiu a notícia de que a banda tinha acabado, que não iriam mais tocar juntos, e que nem a amizade tinha sobrevivido. Não se conversariam nunca mais.

Incompreensível. Ninguém nunca ficou sabendo o motivo, ou melhor, ninguém é um pouco de exagero, porque os quatro obviamente sabiam, e eu tive a chance de descobrir também, apesar de que nunca antes eu havia contado a verdade.

Acontece que eu era – na época – muito amigo de um deles. Ele era o mais tranqüilo dos quatro, quase nunca discutia com ninguém, sempre apoiava o que a banda decidia, um sujeito pacato ao seu jeito. Digo “Era” porque ele morreu, mas antes de morrer me contou o motivo da separação. A conversa foi assim:


“- Cara, foi naquele show fora do estado, lembra? Pois então, a gente estava muito empolgado, felizes e satisfeitos pelo convite. Tudo estava muito lindo e organizado, com tratamento de primeiro mundo, hotel, comida, birita, fantástico. O show nem foi tão bom, porque estávamos muito nervosos, mas ainda assim o povo gostou. E aí veio o problema. Quando a gente desceu do palco, rindo feito criança em loja de brinquedo, uma das produtoras do show veio e nos entregou as fichas para pegar cerveja.
- Mas isso não era bom? Vocês tinham cerveja grátis!!
- Bom pra caramba, claro, mas ela entregou pro vocalista dezenove fichas.
- E daí?
- Cara, nós éramos quatro, ela deu dezenove fichas. Como divide dezenove por quatro?
- Peraí, você tá dizendo que isso foi o problema?
- Cara, porque ela deu dezenove fichas? Porque não deu vinte, ou então dezesseis?? Dezenove?? Que diabo de número é isso?
- Meu amigo, era cerveja grátis. Jogasse fora se fosse o caso, mas vocês brigaram por causa das malditas dezenove fichas??
- E você pelo visto não acha motivo suficiente, né? Tem gente que acha que tudo é fácil, que não entende o problema dos outros! Cara, ela deu dezenove fichas!!!”

Pois é, eles acabaram com a banda por causa das dezenove fichas. Por não saber como dividir entre os quatro. Imagina isso?

Mas também, quem é que entrega dezenove fichas? Ainda se fosse dezoito, ou vinte, mas dezenove??

Humpf!
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Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com
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sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Um buraco no Fora do Eixo!

Essa semana um texto me chamou a atenção. Foi feito pelo Richard, que tem um selo aqui em GoiâniaTown, o Anti Records.

Isso porque o velho escritor já falou sobre a burrice da unanimidade, pois eis a voz dissonante que aponta falhas numa idéia que vem recebendo loas e incensos por todos os lados: o Circuito Fora do Eixo.

Já disse ao Richard que não concordo com tudo que ele disse no texto, mas pela coerência do texto, pela coragem de expor o que pensa e pela contribuição que qualquer discussão pode trazer para um projeto, pedi e ele me autorizou a colocar o texto aqui no blog.

Leiam, reflitam e ao final eu coloquei o endereço do tópico do orkut em que ele colocou esse artigo inicialmente. Vamos alimentar a discussão, se não for para mudar algum comportamento, que ao menos possamos reforçar os já existentes.

Ou no mínimo para ouvir / ler o pensamento de um cara que briga muito pelo rock independente e que por isso merece meu respeito. Agora quem fala é o Richard...


Buraco no circuito fora do eixo

Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro minha intenção ao escrever este simples artigo. Não quero de nenhuma forma, atacar meus companheiros de trabalho na produção de shows aqui na cidade, cujo trabalho é fundamental para o respeito em âmbito nacional que a cidade tem quando o assunto é rock independente. Mas ao ver o que acontece na cena hoje, sinto no direito de dar uma posição às bandas com que trabalho, que algumas vezes (e com certa razão) se sentem injustiçadas com o espaço que lhes é concedido e com o pouco apoio que lhes é dado. Porém, hoje nos meios informativos do “rock fora do eixo”, é muito claro ver a ascensão de bandas de certos estilos que caem no gosto de quem está ligado e detêm os meios de comunicação e a produção de shows nesse meio. Não vou esconder minhas críticas e nem trabalhar com indiretas, por que acho que o que eu tenho a dizer é realmente necessário, pois vejo claramente bandas de trabalho recente tendo seu trabalho reconhecido (o que é muito bom), porém vejo bandas que estão literalmente ralando e seu trabalho ainda está longe de ser reconhecido. E tenho em minha visão, que o motivo é o simples fato de que, nesse meio se criou um “padrão” para o rock goiano, que acaba por desmerecer outros estilos fora do stoner ou do indie.

Vamos então aos fatos: Criou-se uma espécie de liga do rock and roll que inclui a cidade de Goiânia, o chamado circuito fora do eixo. Este circuito foi feito para, entre outras coisas, fortalecer a cena cada vez mais crescente fora dos grandes eixos no meio do rock, onde acontecem grandes eventos regularmente. As principais representantes deste circuito são Cuiabá e Goiânia. O trabalho tem sido de um modo geral muito bom, não fosse por um buraco, que com certeza posso afirmar, vem se tornando cada vez maior, e, mesmo assim, não atraiu a atenção da produção que representa tal circuito na Goiânia rock city.

Vamos então falar primeiro da propaganda. A revista DECIBÉLICA, hoje creio que a única que tem o potencial de atingir toda a cena, é o meio que pode mostrar este buraco, devido às reportagens. O trabalho é muito bom, a parte gráfica da revista é muito boa, os releases no geral são bem explicativos, porém a vontade de trabalhar na cena como um todo não é tão boa assim. A revista mostra a cena goiana, no geral, focando apenas duas produtoras da cidade: a Monstro Discos e Fósforo Records. De acordo com esse olhar, alguns estilos como o punk rock tradicional, o hard core (melódico, crossover, nova-iorquino, etc) e o metal ficam sem espaço devida a construção que se faz de Goiânia como a cidade do indie e do “hard rock” (é errado dizer mas estou incluindo nessa linha o stoner e o glam).

Em questão do surgimento de bandas novas, é inegável o potencial delas em todos os estilos. Mas os olhos dos festivais que estão no Circuito Fora do Eixo parecem não achar tanto, visto que as novas bandas que sempre são convidadas para os shows, são em sua maioria dos estilos que configuram o rock goiano segundo estas produtoras. Realmente me deixou meio instigado ver o release do Circuito da revista DECIBÉLICA colocando Goldfish Memories como uma das bandas que mais se destacou este ano. A banda é muito legal, tem a pegada boa, e tem entrosamento, mas não chegou perto de ser colocada nos destaques deste ano. Isso desmerece o trabalho de algumas bandas novas que ralaram, fizeram shows durante todo o primeiro semestre, lançaram material e conquistaram um público muito considerável. Só não tem o mesmo mérito que a citada Goldfish por uma questão de gosto pessoal.

Agora, neste ano, me parece que estas produtoras sentiram uma queda no seu público (o que é bem verdade, pois pra mim isso é frequentemente reclamado). Isso é um acontecimento que nada contra a maré, já que a cena aqui está em ritmo de crescimento. Porém, se eles, juntamente com a fiel escudeira revista DECIBÉLICA, julgam o nível das bandas novas de acordo com o seu gosto pessoal, e sempre colocam as melhores em seus shows, não entendo então o porquê da falta de público. Eu não sinto esta falta de público nos meus shows quando vejo um show da Duup lotado, com direito a moshs e rodas de hard core, ou um show divertido e direcionado com o Tcholas, e por aí vai. Já que eles têm o direito de fazer tais julgamentos, eu julgo também os destaques deste ano, porém levando em consideração os vários shows feitos por estas bandas e os materiais lançados. Incluo as 4 bandas que lancei este ano (Duup,Tcholas, Lascívia e Os Fronhas), cujo trabalho foi gratificante e reconhecido pelo público que foi aos shows, quase sempre cheios. Aos Engravatados, que neste ano fizeram vários shows, tem um puta de um guitarrista bem criativo e gravaram varias músicas que podem ser conferidas nos links que deixarei abaixo. The Envy Hearts, esta sim a grande campeã do stoner, totalmente redonda. Gloom, que toca direitinho e caiu no gosto do público que busca atingir. Funbox, que foi promessa quando surgiu, mas que por uma grande ironia, deixou de ter importância dentro da produção que hoje está no circuito quando abandonou a influencia stoner no seu trabalho. No Dolls, punk com ênfase na luta feminista e o Joana D’ark, que é muito criativa, com destaque pro batera.

E pra finalizar, quero deixar claro mais uma vez, que não estou desmerecendo o trabalho de ninguém, muito pelo contrário. Porém, o circuito é que as vezes parece desmerecer nosso trabalho.


Para quem quiser conferir o tópico e os argumentos surgidos, e também quiser colaborar na discussão, o endereço é esse aqui:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=10440997&tid=2491175057132527052&na=4
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Há braços!
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Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com
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segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Tapa no mico!

"Devo ter sido o último panaca a assistir ao tal “Tapa na pantera” e, se não estou completamente louco, os velhos maconheiros – ô, raça! – devem estar morrendo de vergonha do vídeo sensação do You Tube. São três minutos e trinta e seis segundos de piadas bocós sobre efeitos colaterais consagrados da canabis sativa – risadas incontroláveis, disritmia e lapsos de memória, por exemplo – interpretadas por uma senhora porra-louca com um cachimbo na mão e nada, absolutamente nada na cabeça. É um espetáculo tão degradante do ponto de vista dos neurônios da protagonista, que todo pai deveria mostrar “Tapa na pantera” aos filhos, a título de advertência: “Olha aí como fica uma pessoa que fuma maconha”. Chocante!"
Tutty Vasques desanca o mito virtual, mas com alguma coerência por trás de seus urros. Isso porque o protesto dele não é contra ou a favor da maconha, mas em defesa do talento rebelde e eterno, inquestionável da belíssima atriz Maria Alice Vergueiro. Está aqui http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=14&textCode=23630&date=currentDate&contentType=html
Realmente, com o currículo dela ficar famosa na net por causa de um tapa na pantera... é pouco para ela.
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Há braços!
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Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
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terça-feira, 26 de setembro de 2006

Joana D'ark - criatividade insana e personagens

JOANA D'ARK - A INTERPRETAÇÃO DE UM SONHO

Desejamos acima de tudo que nossos ouvintes, como nos sonhos, possam se desligar do padrão pensamento-afeto, padrão este que revela toda a parcialidade e unilateralidade limitada de nossa consciência... Procuramos apresentar aqui a interpretação conceitual das canções da banda Joana D'ark através do que estes símbolos (letra e musica) representam aos autores das mesmas.
No entanto, é mais importante para nós, a sua livre interpretação, transformando os símbolos e moldando a sua realidade, buscando suas próprias respostas e o autoconhecimento.

"O sonho é um ecossistema diferente, entre outros motivos, porque obedece às regras do inconsciente. Seu conteúdo é diferente porque o inconsciente é uma fonte inesgotável de conhecimento e energia. Portanto, neste novo ambiente o drama humano ganha novas cores, o que propicia maior energia e conhecimento para o individuo"

Para entendermos a mensagem de Joana D'ark, devemos utilizar o método da ALQUIMIA-SIMBOLICA , pois ela atua transformando os símbolos oníricos a realidade de cada individuo. Assim é narrada a saga de Joana D'ark através de 12 canções... Um romance contado por três personagens... Três vozes... Joana D'ark , Sofia, Testament...

"Sou agora um homem sonhando que é uma borboleta, ou sou realmente uma borboleta que sonhara com um homem?"

Sofia simboliza a insônia, de personalidade racional, material e cientifica, ainda assim, com fortes valores éticos, sua visão é unilateral, sua mensagem, direta, assim como podemos ver na canção Mente Clara, onde Sofia ganha voz. Sua constatação diante o aparente sofrimento de sua melhor amiga Joana é de inicio a displicência, por fim a insanidade.
Ao traduzirmos este ecossistema onírico, Sofia se transforma no amor, amor que Joana se distancia Paulatinamente desde o ponto que ambas adquirem asas distintas, Sofia se tornara Icarus, e o sol, seu objeto de valor primordial... O ouro... Com estas asas tecnológicas poderia voar ate mesmo contra o vento... Sofia, a águia, cada vez mais alto... Os prédios... Sofia é o avanço caótico e desenfreado. Sua pele agora metálica reflete o brilho ofuscante do imutável e eterno sol...
Joana que já havia perdido sua liberdade inocente (infância) que lhe conferia o "amor" de seus pais, também sofre agora a perda de sua pedra mais preciosa, o seu "Zahir". Diante a esta realidade sistematizada e subserviente, Joana, dentro da própria selva capitalista se isola num plano desmaterializado, inatingível aos olhos sólidos... Joana, um ermitão na terra dos sonhos, as brumas a se dissipar, suas asas oníricas, leves como a urze branca de Gibran, carregadas pelo suave vento, Avalon é o seu destino... "Você é o que você pensa"...
Na musica orquestrada pelo maestro Testament, o rito de passagem, do Levante ao inefável mundo idealizado por Joana. Pela visão ultra-romântica, podemos traduzir Testament como a imagem da "morte". Enquanto Sofia busca um espaço social, muitas vezes iludida quanto as possibilidades concretas de atingi-lo, Joana, nossa poetisa, em seu "mal do século" após deturpar a realidade, sente-se liberta dos condicionamentos e feridas ao tentar adaptar-se. Consequentemente, um acadêmico literário diria, "negando a vida o poeta se conduz ao delírio da morte, ao excessivo egocentrismo, a nostalgia de um passado medieval, desta vez idealizado, mais nobre, menos "embrutecedor". Segue-se as ilusões deste passado, o seu culto, do qual resultam mais demônios do que anjos. O poeta consumido por suas próprias idéias, torna-se "fantasma" ao invés de "eleito", transforma-se em "suicida vitimado" pela necessidade de uma vida melhor, uma vida maior, que, no entanto, não consegue conquistar".
Joana, já consumida, tem em posse as asas, asas essas, chamadas por ela de "A terceira Alma", a realidade moldada e pincelada pelos sonhos. Jacobina, personagem do conto O ESPELHO de Machado de Assis, nos apresenta as duas primeiras almas... "Cada criatura traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...", neste conto vemos a alienação, a derrota, a eliminação do homem-joazinho pelo alferes, a mascara imposta direta ou indiretamente pelo sistema.

Vejamos que em EMILIO obra de J.J. Rosseau, o ponto critico da formação social de Emilio é precisamente torná-lo apto a "viver com" os homens, mas não como eles, procurando assim, manter ao Maximo a nossa primeira alma mais consistente à segunda. Rosseau nos diz, "o homem da sociedade esta todo inteiro na sua mascara, não estando quase nunca em sim mesmo, quando esta, se acha estranho e mal a vontade, o que é, não é nada, o que parece, é tudo pra ele". Vemos assim a distinção entre Jacobina de Machado (corrompido pela segunda alma) e Emilio de Rosseau (lutando pela consistência da primeira alma).
Viver como Emilio se tornara impossível a Joana, e "viver com" os homens, seria para ela, angariar, mesmo que imperceptível, um mundo lúbrico de tentações e armadilhas, ou por outro lado, diante a essa massificação quase generalizada de Jacobina, viver em uma desperta e perene prisão...

"A invisibilidade é um dom que somente os invisíveis possuem, mas ninguém nunca viu..."

Testament é a imagem da morte, um ponto final aos olhos robóticos da sociedade sistematizada. Joana em seu namoro com figura da morte, vê o caminho para a sua realização, a idealização de um mundo satisfatório, o seu solar erguido por blocos oníricos, onde a matéria desintegrada oferece lugar apenas à essência. Testament, um paradoxo... A vida e a morte... É ele com sua ocarina, um canto sereno a controlar o vento que guiará Joana, envolta de uma plumagem que somente a verdade pode ver, assoprada levemente como a urze branca de Gibran, ao seu destino...

Desejamos, pelos nossos sonhos, que todos possam tomar conhecimento do desfeche desta saga, materializando mais um sonho, a produção de um álbum... Esta foi apenas uma leve interpretação dos símbolos (letra e musica) do ponto de vista-realidade dos autores... Terminamos aqui com três pontos, porque nunca há um fim, e a essência haverá de se manter sempre... Eterna...

Quanto à urze branca de Gibran...

A IMORTALIDADE
Ele falou da urze branca selvagem que sorri ao sol e doa seu incenso à brisa passageira
E Ele diria "os lírios e a urze branca vivem porem um dia, no entanto, este dia é uma eternidade despendida em liberdade"
KAHLIL GIBRAN

Bom ou não?

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

SANGUE SECO em Cuiabá! No YouTube.


Pra quem não foi a Hell City, eis um registro tosquíssimo do show do SANGUE SECO no Calango.

Filmado num celular, pelo nosso roadie-segurança-brother Ricardo Sahaquiell.

Algumas vezes ele grita junto com a banda, e fica engraçadíssimo!

Dá uma olhada no http://www.youtube.com/results?search_query=sangue+seco&search=Search e se diverte.

Se esse não abrir, olha nesse aqui http://www.youtube.com/watch?v=iujTNmoXTuY e manda brasa.


Há braços!!


Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Do desbunde pra bundice, que trajetória!

Estava revendo “Quase famosos” dia desses. E me veio aquela velha sensação que sempre tenho quando vejo filmes que retratam os “flash and crash days” que foram o final dos anos sessenta até o meio dos anos setenta: a vontade de ter vivido aqueles tempos. Isso porque tendo nascido no início dos anos 70 (em 1970, pra ser exatíssimo) eu vivi uma situação chata, porque quando cheguei “na festa”, ou seja, quando comecei a descobrir todas as tentações que podem assaltar um adolescente cheio de hormônios e desejos, a festa estava começando a abaixar o som.

Digo isso porque quando eu achei que ia “espocar a cilibina”, como diria o Glauco, a maioria dos grandes artistas mundiais estavam mortos ou morrendo por causa dos excessos químicos, fosse álcool ou drogas ilícitas. Quando eu achava que ia “comer” o mundo inteiro, a AIDS estava surgindo ameaçadora e cruel, obrigando o mundo a se comportar ou usar preservativos desconfortáveis e brochantes, isso porque preservativos ainda soavam como algo anti-natural naqueles tempos. Então para quem é de uma geração ou duas depois da minha, é natural usar preservativos, porque praticamente nasceram usando; e as drogas já não assustam tanto assim mais, mas eu sou de uma geração que foi ameaçada, e ou se lançava de forma corajosa/amalucada nas experiências ou se recolhia à sua covardia pequeno-burguesa e seguia a vida sem extremos.

E aí quando eu vejo um filme como “Quase famosos” ou leio um livro como “Mate-me, por favor” eu fico pensando como devia ser louco não ter medo de nada, lançar-se na vida com desesperada sede, experimentar tudo, viver tudo, assumir tudo que se pensasse, envolver-se em grandes causas e movimentações, perseguir o sonho kerouakiano e poder explodir em chamas sem receio. Assim eu sempre imaginei que fosse o ambiente rocker, com seus exageros vivenciais e ideológicos, mas me decepcionei quando finalmente pude provar o que é estar no meio rock´n roll.

Não porque os exageros químicos não existam, até existem ainda em enorme quantidade. Claro que já não possuem tanto apelo para mim, pois já passei da hora de começar uma vida junkie, e me limito a ser um “bêbado trincado”, como me chama o Beto. As outras drogas não me chamam mais a atenção.

A decepção vem da escassez ideológica do meio rocker. Escassez não define, a aridez é um termo mais acurado. Ao que parece o rock passou do desbunde sessentista para uma bundice no novo século, uma apatia, uma ausência de posicionamento e provocação, uma ida de um extremo ao outro sem freio nem pausa. Ao que parece o rock tornou-se tão somente uma opção de se afastar das questões e viver num hedonismo autista, mais que mergulhar nessas questões e buscar a dialética e a contradição, que eram combustível para grandes movimentações, discursos, posicionamentos e atitudes.

“O rock errou”, Lobão disse uma vez. Talvez seja isso então, o erro foi tentar mostrar uma cara politizada e ativista, quando na verdade tudo era somente festa e exagero. O erro foi me fazer acreditar que o rock fosse um canal de expressão do que pensamos e queremos para o mundo e para o ser humano, quando na verdade então o rock é somente um canal de expressão individualizada e egoísta. E quem quiser buscar algo de melhor pro mundo que monte uma ONG antes de uma banda. Será isso?

Dia desses numa discussão orkutiana um famoso participante reclamava que sempre que termos como “anarquismo, comunismo” e outros assemelhados surgiam na discussão, o povo reclamava, como se algo proibido estivesse sendo abordado, e brotam argumentos como “política é uma coisa chata” e coisas do tipo. Então fica a impressão de que os roqueiros de hoje são realmente os cabeças de vento que meus avós acreditavam. Isso me apavora, será que a visão radical, tradicionalista e conservadora, que por muito tempo foi alimentada por aqueles que sentiram o rock como um ato de guerra, será a certa? Será que eles afinal estavam com a razão?
Isso seria muito decepcionante. Prefiro acreditar que estamos vivendo uma fase letárgica, em que a reação será violenta e destruidora; prefiro acreditar que essa é uma transição em que os ressentimentos e rancores se acumulam e se potencializam. Prefiro acreditar então que a qualquer momento algo vai ensurdecer a patuléia que quer circo, e o grito vai se tornar único, forte, coeso, íntegro, e aí então vergonha vai ser não escolher um lado, ser radical e ter atitude (e esse termo finalmente vai fazer sentido).

Prefiro acreditar que meus avós estavam realmente errados, e que o rock é um lugar para cabeças pensantes, com idéias e ideologias, com posturas e que aceitam correr o risco por isso. Melhor que o rock seja o lugar em que as pessoas vão para ser sacrificadas e não para ser incensadas e louvadas. Melhor que sejamos os demônios ameaçadores em tudo que dizemos e acreditamos e não santos ocos, patéticos e inofensivos, mergulhados apenas em viagens químicas e negação.

Melhor que sejamos quase famosos, e não unanimidades inquestionáveis. Ou então que alguém nos mate, por favor.
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Há braços!
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Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei