sexta-feira, 21 de abril de 2006

O canto aconchegante que existe no inferno

Esse texto foi feito para a NewsLetter do Circuito Fora do Eixo. A pedido da Marielle eu vou comentar sobre a cena de GoiâniaTown e os locais de show que existem por aqui, bem como o que vem acontecendo. Esse foi o primeiro.

E.


Lembra quando você é guri e tem que dividir o quarto com algum irmão? Quem teve que passar por isso nunca se esquece, porque tudo que a criatura consegue desejar é um quarto só para ele, onde possa ter privacidade e poder falar "Meu Quarto" de boca cheia. E um dia finalmente essa criatura consegue um quarto, porque a irmã mais velha casou ou coisa parecida, e começa a montar o quarto DELE, com as coisas DELE, e logo ele descobre um canto no quarto onde é bom de sentar para ler. Descobre ainda um canto no quarto onde ele gosta de ficar para ouvir música, tem o lugar para sentar e bater papo com os amigos, e cada um daqueles cantos vai ficando com uma característica inesquecível e marcante que se define com uma palavra: aconchego.
Aqueles cantos são aconchegantes, porque possuem o tanto de pequenez para você ter a sensação de proteção, mas possuem o tanto de espaço para sua sensação de conforto. E seguimos pela vida procurando cantos aconchegantes, na sala de aula, no escritório, em todas as próximas casas que talvez tenhamos, no colo de todas as mulheres (ou homens, cada um sabe de si) das nossas vidas porque o tal canto aconchegante é uma necessidade, uma volta ao útero talvez, em que tínhamos o mundo inteiro ao alcance de nossos dedos em formação.

E quando esse canto aconchegante é num local gostoso do inferno? Eu explico; e quando esse canto confortável é um lugar barulhento, quente, apertado e inesquecível. Essa mistura de sensações, de conforto com desconforto, de aconchego com aperto, de paz com insanidade, tudo isso é o Capim Pub do eterno Afonsim, um local em que o rock de GoiâniaTown se desenvolve às margens do córrego CapimPuba, de título indígena que oferece seu nome à criatividade do proprietário.

Mas antes de falar da casa, vamos falar do insano proprietário. Conheci Afonsim numa época em que havia poucas bandas na cidade, eu fazia o segundo grau (hoje é ensino médio, né?) e procurava o que fazer nas madrugadas da cidade. Afonsim era vocalista do Restos da Cultura Proibida, uma banda das mais criativas que já existiu nesses lados, misturando um rock inglês, com um baixista maldoso com as quatro cordas, muita atitude visual, quase cênica, e músicas inesquecíveis. Afonsim era a figura que estava à frente daqueles caras, e movimentava a cena da cidade numa época em que não existiam certezas, nem rótulos, nem segregação; e todo mundo que gostava de rock andava junto.

Afonsim sumiu com o fim da banda, e eu fui encontrá-lo novamente muitos anos depois na Broadway, em Arraial D'Ajuda, ambos estávamos zêbados e dando risada, ele vendendo artesanato, e eu tentando descobrir o caminho do albergue, ou qualquer caminho que me levasse.

E a próxima vez que eu o encontrei foi capitaneando essa casa exótica e única, o Capim Pub, o canto aconchegante que ele abriu para que o underground goiano possa sobreviver. Pequeno, estiloso, tosco, confortável (tem um puta sofazão lá) e barulhento, porque sempre tem alguma banda tocando lá. O palco é pequeno, a banda fica junto da platéia, tem uma porta no meio do local de show, o banheiro é único e quem vai lá uma vez fica marcado para sempre. Tanto pelo jeitão de "nossa casa" que Afonsim conseguiu imprimir, recebendo as pessoas cumprimentando uma a uma com ares de dona de casa, quanto pelos shows memoráveis que por lá acontecem, com participações especiais e muita energia; e sempre fica um gosto de "preciso voltar" que acaba levando as caras conhecidas novamente para lá. E pode parecer paradoxal ser confortável sendo pequeno, ou ser aconchegante sendo barulhento, mas o Capim Pub é realmente paradoxal, uma resposta para perguntas que ninguém tinha pensado em fazer.

O Capim Pub vem fazendo o CapimRock, agitando a cidade aos domingos sonolentos, sempre com três (no máximo quatro) bandas por evento, começando sempre por volta das dezoito (no máximo dezenove) horas, preço suave no ingresso, sem limite de tempo para as bandas tocarem e sem limite de liberdade para quem vai, porque é uma nossa casa longe de casa (como diria a propaganda de algum hotel nos anos 80). O lugar é improvável, o tamanho é inédito, a televisão passa programas exóticos, as bandas são viscerais e o programa é obrigatório. Para quem quiser achar, o Capim Pub fica na Rua 05, número 65, no Setor Aeroporto, aqui em Goiânia Rock City.
E se nós aqui usamos esse apelido para nossa cidade, e nos orgulhamos de poder usar, muito disso atualmente se deve aos guerrilheiros incansáveis do Capim Pub, Afonsim e Segundo, que criaram esse evento e mantém na garra e no suor. O CapimRock conta sempre com o apoio da TwoBeersOrNotToBeers, selo que defende e divulga o underground, dando oportunidades para bandas que sem ele não teriam lugar para tocar, e isso é importante, muito importante.

Pequeno, barulhento, quente, mas com um sofá confortável, boa cerveja, bons amigos e muito rock todos os domingos, o Capim Pub é o nosso canto aconchegante que existe no inferno. Quando chegar lá, abraça o capeta e aproveita.

Eduardo, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com

quarta-feira, 19 de abril de 2006

LOADED - O Inimigo está no ar!!


Já ouviu o Loaded? No site www.loaded-e-zine.com ? Dos malucos de Sampalândia, Alexandre, Valter e Carlos? Putz, parece que não mesmo. É um zine virtual que apresenta as novidades da cena rock independente, com bom humor e criatividade, com três malucos apresentando e com muita banda de altíssima qualidade rolando na alta. O Programa já existe há seis meses, e nesse meio tempo vem se consolidando como uma referência em divulgação de bandas novas e cenas no Brasil inteiro.
Há três semanas eu comecei a participar do Programa, com interferências inimigas, apresentando o festival Bananada. O Grito Inimigo vem ecoando pelo mundo inteiro, e sempre levando informação, curiosidade e apresentando bandas que vão tocar no festival.

Para apresentar a idéia, eis aí os textos que eu urrei nos Programas. Na ordem, são dos Loadeds 22, 23 e 24. Só lembrando, se quiser ouvir os programas vá até o www.loaded-e-zine.com e clique em escutar os programas ou em escutar programas passados. Divirta-se ou desvista-se!

LOADED 22

Começa com Grito!

Sim, é isso mesmo! Conforme anunciado no Loaded número 21, agora existe mais um Loader. Meu nome é Eduardo Mesquita, eu sou O Inimigo do rei, e fui convidado pelo Valter, Carlos e Alexandre os três Loaders originais, para participar do Loaded. Como eles dizem, um dia tudo isso vai fazer sentido. Então de hoje em diante eu também estou aqui, gritando diretamente de GoiâniaTown, mandando notícias diretamente do olho do furacão, preparando as turbinas para o Bananada desse ano. Caras, muito agradecido pelo espaço!
E aqui eu vou falar do festival, da cidade, do local onde se realiza atualmente o Bananada, contar histórias, fatos, lendas, mas o principal propósito é provocar a curiosidade e a expectativa de quem vem para o Bananada. E também de quem não vem, pra passar vontade nesse povo. Já acertei com Fabrício Nobre, da Monstro, que vamos buscar anunciar em primeira mão as bandas que forem definidas para o Bananada desse ano, e apresentar para vocês algumas dessas bandas.
A gente vive hoje em dia uma ebulição enorme no rock independente, todo mundo está acompanhando, e junto à Abrafin (o Bananada é um Festival filiado a ABRAFIN – Associação Brasileira de Festivais Independentes), junto ao Circuito Fora do Eixo, junto aos festivais, selos, blogs, sites e milhares de bandas de todos os cantos agora também vamos colaborar de dentro da fera, do útero desse que é o zine virtual, programa de rádio virtual, mais sintonizado com tudo que acontece.

Aqui é Goiânia, e nessa cidade repleta de mulheres lindíssimas, bandas de tudo quanto é estilo e muito calor vai acontecer a Oitava edição do Bananada. Dessa vez tudo vai acontecer entre os dias 19 e 21 de maio, no eterno e simbólico Martin Cererê. Ainda vamos falar aqui sobre esse centro cultural, aguardem próximos programas. O Bananada desse ano vai contar com 44 bandas, em três dias de shows, com a bembolada estrutura de 02 palcos soltando som direto, praça de alimentação (e tomara que tenha aquele acarajé matador da tia de novo), bancas de cds, livros, quadrinhos, camisetas, tudo quanto é buginganga do rock para alegria do monte de gente que aparece do país inteiro pressa festa.

O bananada surgiu em 1999, de uma iniciativa do Fabrício. Ele tinha um selo na época chamado Me & My Monkey (e não me pergunte hoje porque esse nome frito) e queria fazer um festival, mas não estava achando um nome legal. Ele pediu sugestões para os participantes de uma lista de discussão na época e o Guedes, do Grenade, do sul veio com a idéia de Bananada. Muito a ver com o Me & My Monkey.
Quem vem para o Bananada, já fique sabendo, são muitas horas de rock direto, em que seus tímpanos e suas pernas são colocados à prova, porque quando domingo chegar, ao final de tudo você vai estar com os ouvidos zoando e vai descobrir músculos nas suas pernas que você nem sabia que tinha. É muito rock, é muito tempo em pé, andando, batendo papo, enchendo a caveira e chapando com tudo que acontece.
Hoje eu vou apresentar para vocês uma das bandas que já está definida para o Bananada 2006, o Automata.
O Automata é uma banda da Bahia. Os integrantes vieram de outras bandas, com a Pimps, Fantoche e depois, nos Estados Unidos, formaram a Dive. Mas as coisas engrenaram de vez quando eles voltaram para o Brasil e formaram o Automata. Músicas pesadas, criativas, mas o ponto forte inegável são as letras. Os caras mostram trabalho e cuidado para escrever, usando referências e trechos de coisas tão díspares quanto um discurso político e um artigo dum economista. O CD chama “Indivíduo-Ação” e a produção é do baterista da banda, Jera. Quem quiser ouvir as músicas, visita o site da banda no http://www.automata.art.br. Hoje nós vamos tocar “Sob os céus de Ba(h)ia”, aflando de torturas e reis que merecem morrer. Muito de acordo.

Aqui é o Inimigo do rei, direto de GOiâniaTown. Agora, a gente só está esperando a hora!
Há braços!

Loaded 23

GRITO

Sim, é isso mesmo, aqui é Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei, direto do Manicomial em Goiânia. Toda primeira vez é complicada, você se lembra do primeiro beijo ou da primeira aula na faculdade ou a primeira vez que subiu num palco para tocar, bate ansiedade, bate nervosismo, a pulsação dispara, a pressão aumenta e você sai disparado feito uma locomotiva sem freio, ou melhor ainda, como uma bicicleta sem freio. E na semana passada, na minha primeira participação aqui no Loaded, eu estava nervosão, e ainda tinha tomado duas canecas de café aqui no Manicomial, e o Gustavo faz um café thunder, e lá fui eu enfrentar a gravação com todos os sintomas de uma pré-síncope cardíaca. Mas entre mortos e feridos, todo mundo se salvou, e eu voltei para mais uma interferência no programa.
Semana passada começamos a falar da história do Bananada, pois vamos dar seqüência à saga. A explicação do nome do festival tem também suas versões paralelas, alguns dizem que o nome Bananada é uma resposta à tradição “rurar” da região e muito a ver também com o evento que acontece na mesma época em Goiânia, a exposição agropecuária. Cabe comentar que essa exposição agropecuária é uma das maiores do país, super tradicional aqui na região e no meio agropecuário de forma geral. Além disso, Goiânia tem a fama das duplas sertanejas, e inclusive tivemos um prefeito louco que queria criar o rótulo de Goiânia Country para a cidade. Veja, nada contra quem gosta de música sertaneja, mas o povo do rock sempre se sentiu incomodado com essa associação imediata, e esse pode ser outro motivo do nome do festival, uma Banana para a exposição agropecuária seria muito pouco, então vai uma Bananada.
Como falei semana passada, em 2006 serão 44 bandas no festival, mas no primeiro Bananada foram somente sete bandas, o que mostra a consolidação desse que é um dos festivais independentes mais influentes do país, e nesses anos já tivemos atrações de todos os cantos, do Rio Grande do Sul ao Pernambuco, do Mato Grosso à São Paulo, e até de outros países. Nesse tempo todo já tivemos Wonkavision, PinUps, Bois de Gerião, Carbona, Frank Jorge, All Systems Go, Man or Astroman, Lemonheads, Wander Wildner, a lista é enorme. Isso sem mencionar a quantidade gigante de bandas de Goiânia que já participaram do Bananada também, porque sendo parte da ABRAFIN, o Bananada precisa ter uma quantidade mínima de suas atrações formado por artistas e bandas do estado. Essa é uma das regras da Associação.
Bananada... essa não se faz com um quilo de banana nanica, 700 gramas de açúcar cristal e água. Essa se faz com muito trabalho, gente dedicada, um público fiel, tradição e bandas porrada. Nessa semana vamos apresentar uma banda que volta para destruir tudo, porque eles já estiveram aqui no Bananada de 2004, e puseram o Jóquei abaixo, deixando saudades. Estou falando do Pelebroi não sei?, banda de Curitiba, com seu punk rock alegre, rápido e falando de amores, mulheres, desilusões alcoólicas e um show louco, com um vocalista mais louco ainda. Esses caras já tem tempo de estrada, e agora vêm para Goiânia integrando o time da Monstro e preparando o terreno para o lançamento do terceiro CD, chamado “Aos Farsantes com Carinho”. O site da banda é o www.pelebroi.com.br e hoje vamos ouvir “Desculpe Baby” do disco “Lágrimas Alcoólicas”.

Aqui é o Inimigo do rei, direto de GOiâniaTown. Agora, a gente só está esperando a hora!
Há braços!

Loaded 24

Sim, é isso mesmo. Aqui é Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei, falando direto do Manicomial, contando uma semana a menos para o Bananada 2006. E hoje vamos conhecer um pouco mais o local do evento, o Centro Cultural Martim Cererê. Para quem é de fora, ouvir falar no Martim Cererê já virou motivo de muita curiosidade, e a verdade é que realmente o Martim é hoje um espaço perfeito para um evento do tipo do Bananada. Antes de explicar porque, vamos aos dados e fatos do local. O Centro Cultural Martim Cererê é um espaço da Agepel, que é a Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico, o órgão do governo estadual responsável pela gerência da cultura em Goiás. Foi inaugurado em 20 de outubro de 1988, numa festa inesquecível com a presença de artistas de todas as expressões, gente inusitada como Geraldo Vandré e muitos, mas muitos políticos. O Cererê foi feito em um local que abrigava três caixas d'água da Saneago, a companhia de água e esgoto do estado. O arquiteto Gustavo Veiga criou o projeto de um centro cultural que transformava essas antigas caixas d’água em teatros. Assim, os três grandes reservatórios de concreto (com capacidade para armazenar 500 mil litros de água cada um), foram adaptados e se transformaram nos teatros Yguá, Pyguá e Ytakuá, sendo esse último um teatro de arena. Fica na rua 94-A, no Setor Sul. Um dado curioso sobre o Martim Cererê é que as caixas d’água usadas para fazer os teatros foram também usadas pelos militares e pelo DOI-CODI na época da ditadura para prática de torturas. Supõe-se que muita gente morreu nessas caixas d’água, por defender aquilo que acreditava, mas hoje a arte ocupa esse espaço. Onde antes tombaram ideais, hoje sobrevivem sonhos, gritos, alegria e muita beleza. É um local bonito, com mangueiras enormes compondo o cenário, o bar Karuhá e toda a estrutura necessária para fomentar a arte no estado. E para um evento como o Bananada é o espaço perfeito, porque os shows são feitos alternadamente nos teatros Yguá e Pyguá, que ficam lado a lado, o que proporciona shows ininterruptos, rock direto e sem intervalo.
Ainda pode sobreviver uma curiosidade, e diz respeito ao nome do centro cultural. Martim Cererê é o nome do mais conhecido dos livros do escritor modernista Cassiano Ricardo. É um poema indianista e nacionalista longo, uma saga em que o índio, o branco e o negro tomam posse e inventam um novo país, o nosso país. Cassiano Ricardo, que morreu em 1974, foi membro da academia brasileira de letras, com mais de 50 livros publicados e se valeu do parnasianismo, do simbolismo, do modernismo, do neo-romantismo e do concretismo para fabricação dos seus poemas.
E vai ser nesse local, com tanta história, poesia e simbolismo que vamos receber nesse ano o Dead Rocks, a banda de hoje. Desde 2002 em atividade, o Dead Rocks é uma das boas bandas de surf-music nacional, vindos do estado de São Paulo e já tendo tocado por inúmeros países do mundo inteiro. Surf-music foi um dos estilos poderosos nos anos 60, e voltou recentemente a ser foco das atenções graças às trilhas sonoras de Quentin Tarantino. E não dá para não lembrar de Pulp Fiction ao se ouvir as guitarras harmônicas da surf music. O CD dos Dead Rocks, chamado “International Brazilian Surfs” é uma peça preciosa, confesso que eu fiquei surpreso. Não sabia que surf music podia ser tão boa. Quer saber? Os caras são indecentes! Além das muitas músicas próprias, cheias de criatividade e riqueza, eles fazem uma versão corajosa de “As rosas não falam” do Cartola que arrepia. E, na minha opinião a pérola do disco, uma versão surf-music para “Preciso me encontrar” de Candeia, a música belíssima que já foi gravada pela Marisa Monte e que embala a cena onde o personagem Cabeleira é executado pelos policiais no filme “Cidade de Deus”, com direito a inserção do início do áudio da cena do filme. Não é por acaso que esses malucos são super respeitados na Europa. Dead Rocks é loki!! O site dos caras é o www.rockisdead.org, e essa é a música bela que eles fazem. Vou até me calar, para vocês poderem ouvir os gritos desesperados da amada do Cabeleira. Compensa.

Aqui é o Inimigo do rei, direto de GOiâniaTown. Agora, a gente só está esperando a hora!
Há braços!


E para os xiitas do rock eu ergo meu dedo médio. – Segunda parte, a ciência.

Semanas atrás me servi de uma preciosidade para expressar algo de revolta e indignação com a cobrança xiita de posturas e atitudes, e Álvaro me foi muito generoso ao servir-se perfeitamente aos meus propósitos, mas tenho a firme convicção de que estamos vivendo novamente um fenômeno "Surfista Calhorda" nessa discussão do rock independente.

O fenômeno "Surfista Calhorda" é o seguinte: nos anos 80 a banda gaúcha Replicantes lançou a música com esse nome, e fez sucesso nacional, tocando em rádios, vendendo discos ("O futuro é vórtex" da banda e "Rock Grande do Sul" um pau de sebo da região) e mostrando a cara para o país todo. E disseram que a música gerou um fenômeno interessante entre os surfistas, isso porque a música falava do Surfista calhorda, que é aquele sujeito que tem carrão invocado (hoje diríamos "tunado"), é estudante careta de direito, sustentado por mesada de família, mas com pose de durão, surfista e com atitude. Todos os surfistas "de verdade" sentiram-se vingados com a música, pois ela falava diretamente daquele monte de bocoió que fingia ser surfista e só atrapalhava nas praias e nas ondas. E aqueles que eram surfistas calhordas "de verdade" não admitiam isso, e também adoraram a música, por achar que ela se referia a outros, que não eles. Ou seja, todo mundo adorou a música!!
Com o último texto aconteceu esse fenômeno, ninguém admitiu-se xiita nas discussões levantadas e todos acharam que o texto apontava bem o dedo na cara de quem "caga regra" na cena rock independente. Que beleza, não? Não existem xiitas, radicais, fanáticos, ditadores, são todos legais, gente fina, libertários e outros adjetivos que preguem espaço total para atitude particular e própria. Pois então para apimentar o texto eu assumo: eu já tive atitude xiita! Sim, é isso mesmo, (como eu digo no Loaded – www.loaded-e-zine.com) eu tive comportamentos xiitas, autoritários e babacas. Uma dessas vezes aconteceu numa discussão na comunidade da Anti-Records, selo do frito Richard daqui de GoiâniaTown, quando um sujeito da terrinha, conhecido por nome Renato (ex-Obesos, puta banda!) expressou sua indignação com uma comunidade muito freqüentada da cena, e eu respondi com toda a pompa e circunstância que o momento NÃO pedia, tá aqui pra quem quiser ver - http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=10440997&tid=2454973044070615179 – e mesmo com a discussão tomando rumos saudáveis, eu assumo que fui um palerma ao responder a crítica do Renato com pedrada, bancando o dono da verdade, exatamente o que condeno no texto anterior. Renato foi generoso comigo e trocamos alguns scraps e discutimos algumas coisas e agora só falta ele me pagar uma cerveja ao vivo para nos considerarmos amigos verdadeiramente. rs
Acontece o seguinte, pensar diferente é natural e saudável, criticar os outros é super natural também (ou alguém aqui vai em festa de casamento e não fica criticando os outros?), mas o problema reside quando passamos a ignorar que por trás dos comportamentos do outro existe um mundo, uma história, uma vida. Coisas dignas de respeito e consideração. Me lembra a teoria dos Modelos Mentais, que é um termo criado nos anos 40 por um psicólogo escocês chamado Kenneth Craik. Segundo ele Modelos mentais são as crenças, imagens e conceitos profundamente arraigados que temos sobre nós mesmos, nosso mundo, nossas organizações e como nos encaixamos neles. Ou seja, nossa forma própria e particular de ver o mundo.
Só para exemplificar, em "A República" o filósofo grego Platão conta o Mito da Caverna, no qual um grupo de habitantes do subterrâneo confundem as sombras que eles vêem na caverna com a realidade. Quando uma das pessoas descobre a verdade sobre a origem das sombras e tenta compartilhar sua descoberta com os demais, eles se voltam contra ele e o massacram. Isso apresentado de forma reduzidíssima serve para mostrar que o Mito da Caverna já anunciava a teoria dos Modelos Mentais, que hoje serve de divergência entre gente de todos os cantos. Por exemplo? Minha crítica à forma "miguxa" de escrever do Renato foi respaldada pelo meu Modelo Mental, que condena a pouca leitura, que critica a falta de informação e que associa "nauns" e "sohs" com tudo isso condenável apresentado anteriormente. Mas se eu parasse para pensar um pouco apenas, chegaria à conclusão de que pessoas que usam abreviações e termos internéticos em mensagens de orkut não necessariamente são pessoas sub-literatas, como o Renato me mostrou nos scraps posteriores, expressando-se de forma clara e inteligente. E ainda mais, eu chegaria também à conclusão de que pessoas que realmente são sub-literatas não são necessariamente piores que alguém com leitura. Olha que babaquice a minha!
No texto anterior eu me vali da poesia e anunciei que esse texto seria baseado na ciência, pois então mergulhemos de vez nos conceitos científicos dos Modelos Mentais, e antes que alguém reclame; sim pode ser pesada a leitura. Segundo os estudiosos do assunto todos possuem modelos mentais, o que pode se reduzido ao comentário clássico de que "todos possuem cultura", o que é a mesma coisa. Segundo o teórico cognitivo Edward DeBono "modelos mentais são o resultado de um processo psicológico no qual redes neurais de seu cérebro trabalham para categorizar e organizar o infinito fluxo de complexas informações que você absorve todos os dias" , ou seja, os modelos mentais são gerados pelo processo de organização das informações cotidianas.
Modelos mentais nos levam a tratar nossas inferências e opiniões como fatos concretos e inquestionáveis, costumamos ver nossos modelos mentais como o fato, e por isso ficamos surpresos (e algumas vezes indignados) quando vemos alguém que não pensa como pensamos. O problema começa quando sabemos também que modelos mentais sempre são incompletos, porque é impossível absorvermos todo o mundo, e isso influencia nosso modo de ver o mundo. Com base em nossos pedaços de informação interpretamos o mundo inteiro e as pessoas ao nosso redor, e aí entramos em uma roda viva sem fim, porque os modelos mentais influenciam os resultados que colhemos, e com isso reforçam a si mesmos. Uma vez que escolhemos uma crença sobre o mundo, ela tende a se tornar muito mais arraigada, porque passamos a selecionar estímulos referentes a ela.
Por exemplo, eu como busco utilizar conceitos e paradigmas da minha atividade profissional, poderia ser tentado a ver os "toscos por opção" (copyleft by Type) como preguiçosos ou desleixados, e da mesma forma os "toscos por opção" poderiam ser tentados a ver meus esforços como vendidos, neoliberais ou marketeiros. Mas aí reside um problema de gênese, porque os modelos mentais freqüentemente ultrapassam sua utilidade, ou seja, determinados modelos mentais tiveram alguma utilidade em algum momento, mas ficam ultrapassados eventualmente. Não preciso acreditar a vida inteira em algo que acreditei a quinze anos ou a quinze minutos, porque sou uma criatura em constante transformação, crescimento, evolução e (r)evolução. Isso me faz passível de aprendizado, e esse é o exato momento em que passo a ver que a "tosqueira por opção" é apenas isso, uma opção. Não se trata necessariamente de falha ou erro, mas uma preferência diferente da minha. Tenho todo direito de criticar, mas não posso basear a crítica numa verdade que é somente minha, não posso então ignorar que para muitos aquela é a verdade.
Quer um outro exemplo? Uma vez cientistas descobriram que a menor partícula subatômica, chamada neutrino, possuía massa e peso mensuráveis. Pode parecer um exemplo besta, mas isso significa muito, porque aceitava-se que os neutrinos não possuíam peso nem massa. Essa descoberta levou os cientistas a rever seus estudos para considerar esse fato, e toda uma gama de conhecimentos precisou se adaptar à nova realidade.
De forma objetiva o que quero dizer é que fazemos nossas opções ideológicas, estéticas, políticas, musicais, ou qualquer outra opção baseados em nossos modelos mentais, e por um tempo (variável de acordo com a situação e/ou a pessoa, claro) esses modelos são válidos. Mas não posso me arvorar a petulância de condenar alguém ao calvário simplesmente por pensar diferente de mim, já que o mundo visto pelos olhos do outro pode ser – e certamente é – bem diferente. E antes que me condenem o rótulo de autoritário ou censor de liberdades individuais, não quero deixar implícito que não se possa criticar as posições ou opiniões do outro, mas antes quero deixar claro que a verdade absoluta não existe, ao menos não existe para nós criaturas que vivemos na caverna.
Saber entender o ponto de vista do outro pode ser pedir muito para mentes tacanhas, mas ter o mínimo de educação para apontar as falhas encontradas não é exatamente grande esforço.
Aos príncipes meus irmãos, xiitas detentores da luz e do saber, possuidores da verdade absoluta do universo, apenas peço-lhes esse cuidado, pois a cena rock independente já possui obstáculos inúmeros para enfrentar, não precisa de dissidência burra e mal-feita para dinamitar as poucas pontes que forem construídas. Existem pessoas para todas as vertentes musicais, estéticas, ideológicas e estilísticas existentes, em todas as cidades que vemos a cena se desenvolvendo, o que se faz necessário é buscar dirigir-se ao seu público, gerar esse público e esse círculo virtuoso de crescimento e melhoria, a cada um do tamanho da sua fome, no limite de seu esforço.
E isso, antes de ser marketing, é anarquia.


Na terceira parte, o popular.



Eduardo, O Inimigo do rei
eduardoinimigo@gmail.com

E para os xiitas do rock eu ergo meu dedo médio. – primeira parte, a poesia

Nunca conheci quem tivesse feito merda!

No meio rock independente todos os conhecidos tem sido campeões em tudo. Sabem exatamente como se comportar, o que fazer, o que falar, aonde ir, que roupa usar, o jeito certo, a forma exata de se comportar. Todos possuem receitas certas e definitivas do que é ser rockeiro, punk, independente, alternativo, regueiro, hippie, boy, com atitude ou vendido. E rotular e apontar o dedo e mostrar as falhas é um esporte tão praticado e venerado, que por momentos parece que vivemos novamente tempos de inquisição.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, tantas vezes velho, tantas vezes ingênuo, tantas vezes diferente, tantas vezes querendo ser profissional. Mas que ao crivo da inteligentsia dos rockeiros me torno apenas indesculpavelmente sujo. Eu que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar cerveja quente.. Eu que muitas vezes não tenho tido o cuidado de ficar calado e não me manifestar. Tantas vezes que sou ridículo, absurdo. Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes do código de comportamento rocker, que tenho sido arrogante ao tentar propor algo diferente. Que tenho sofrido enxovalhos, mas não me calo. Parece que não aprendo.

E que quando não me calo, tenho sido mais atacado ainda. Eu que quando a possibilidade da briga surgiu, me afasto para longe dela, por não acreditar que bater boca seja produtivo, por não querer agredir nem ser agredido, por querer participar.

Não eu, mas nós (porque somos muitos), que temos sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, começamos a pensar que não temos pares nisto tudo neste mundo. Toda gente que conhecemos e que fala conosco, ou tecla conosco, nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe, todos eles príncipes na vida.

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que me confessasse que não concorda com o pregado pelo baluarte da cena, que não precisa atacar para se defender, que acredita que colaborar não é fraqueza. Que me contassem não uma violência, uma crítica, uma chacota, mas uma covardia, uma fuga, um medo. Não. São todos o Ideal, se os ouço e me falam. Sabem exatamente o que é bom, o que é o jeito certo de pensar, o que confere credibilidade, o que agrada, o que está no manual "Como ser rockeiro – for dummies" ou "Tenha atitude em 10 lições".

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez cometeu algo fora do padrão, que foi a uma rave, que ouviu funk pancadão, que dançou reggae com sua amada, que seguiu alguma moda boba quando adolescia. Que uma vez – de acordo com as regras – foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos!

Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente na cena rock independente? Então só eu que sou covarde, fraco, medroso, tenho emprego, quero dinheiro e conforto, gosto de cerveja gelada e detesto filas? Só eu sou vil nesta cena? Só eu que quero alguma melhoria?

Poderão as mulheres não os terem amado, podem ter sido traídos – mas ridículos nunca! Emo nunca! Regueiro nunca! Funcionário nunca! Sério nunca!

E eu que tenho tentado trazer o que sei da minha profissão para o rock, como posso falar com tantos superiores sem titubear?

Eu que tenho sido vil, literalmente vil.

Vil no sentido mesquinho, infame e neoliberal da vileza.

Meus agradecimentos à Álvaro de Campos, e meus parabéns a quem sabe o porque desse agradecimento.

Na segunda parte, a ciência.

Eduardo, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

quarta-feira, 29 de março de 2006

"Eu sabia que eu ia brilhar!"

Uma vez eu vi uma pichação num muro daqui de GoiâniaTown que dizia mais ou menos o seguinte:
"Eu sabia que eu ia brilhar! disse o fogo de artifício, e se apagou"
Lembrança essa que me remete à Dédalo e seu filho com complexo de mariposa – foi atrás da luz e se deu mal. Tudo isso para apontar o rumo da conversa para o lado dessa coisa sedutora, mas perigosa, o brilho. E conseqüentemente alguns corpos que emitem brilho, as estrelas.

A idéia original desse texto é do Nettü Regert, diretor da Associação Pró Rock de Vilhena – RO e baixista da banda Enmou, e surgiu numa prosa eme-esse-ênica dia desses, em que ele comentava sobre o tanto de gente que quer ser estrela na cena rock independente. E nem discutíamos a exclusividade dessa cena para criar figuras desse tipo, porque sabemos mui bien que gente assim existe em todos os ambientes e grupos possíveis. Mas é que escolhemos fazer alguma coisa no meio desse povo nosso aqui, e gente que sobe em gilette pra fazer discurso realmente enche o saco.Porque estrela é um corpo celeste que possui luz graças aos fenômenos e reações termonucleares que ocorrem dentro dela, ou seja, o corpo celeste produz a própria luz, às custas do próprio esforço, consumindo-se para realizar esse intento. Não é como uma Lua qualquer que simplesmente reflete a luz dos outros, e já adianto que não vou mergulhar profundamente em questões astronômicas porque posso levar bronca de gente mui próxima na eventualidade de cometer alguma barbaridade aqui. Teremos, portanto, somente o suficiente para alimentar a fogueira.
Porque, se nos basearmos no parágrafo anterior e fizermos uma avaliação das pessoas que compõem os eventos e ambientes do rock independente, veremos que muitos ainda se envolvem com o rock na busca de reconhecimento, destaque e as coisas que usualmente (utopicamente, convenhamos) acompanham, ou seja, sexo, dinheiro, sucesso e afins.Bão... começando de trás para frente, sabemos muito bem que o rock independente não se presta tão rapidamente a oferecer-nos sexo, sucesso, fama, dinheiro e fortuna (sim, dinheiro é uma coisa, fortuna é muita coisa). O rock independente nos oferece antes a possibilidade de muita ralação, muito esforço e conquistas gradativas e muitas vezes, pequenas, e isso tudo quando contamos com o apoio de muitos pelo país inteiro (leia-se Fora do Eixo e Abrafin, por exemplo). Então quem entra nessa para "se dar bem" pode se frustrar rapidamente, e perder o ritmo.
Agora quem entra querendo ser destaque, ou se falarmos de forma direta, quem entra nessa "querendo aparecer", esses já possuem melhores condições de satisfação, porque nos shows, festivais e bares onde o povo rock se encontra, muitas são as oportunidades de ser reconhecido pela galera do rock, de ouvir comentários da galera do rock, de ser elogiado pela galera do rock, e por aí vai. Ou seja, existe a possibilidade de "aparecer", mas para um público restrito e seleto, e esse aparecer também é bastante relativo.
Digo isso porque nas vezes em que dirigi peças de teatro, sempre deixava claro para o elenco que quem faz teatro, mais que querer se expressar, viver a arte, exercer a sensibilidade, a pessoa que faz teatro quer aparecer. E como pendurar melancia no pescoço pode dar problema de coluna, muitos escolhem subir num palco e se destacar da multidão. E não há mal nenhum em querer se destacar da multidão, querer aparecer ou coisa semelhante, porque é um desejo legítimo e digno como qualquer outro, e que bom que existe o palco para oferecer esse destaque. Lamento mais pelos que se contentam em ficar eternamente na platéia, em meio à multidão, sem correr risco, sem ousar e sem criar.
Mas o problema é que muitas vezes os ansiosos por brilho querem muito e muito rápido, e ignoram o risco de se extinguir na metade do tempo, como aquela expressão que diz que a lâmpada que brilha duas vezes mais forte se extingue duas vezes mais rápido, ou seja, na metade do tempo. Me lembro de um show que fui no Martim "Serelepe" (esse termo é criação do Fernando Pudim. Gostei, CTRL-C, CTRL-V) de umas bandas iniciantes num fim de semana sem rumo na cidade. Eram bandas que estavam fazendo o primeiro show, a maioria com uma garotada ainda sem idade para tirar carteira de motorista, e um dos shows de uma das bandas (que eu realmente não lembro o nome) tornou-se inesquecível. O vocalista da banda era um cara cheio de pose, com óculos escuros, cabelo loiro desgrenhado, camisa aberta no peito magro, olhar blasé, empunhando sua guitarra de forma relaxada, bem rockstar mesmo; e no meio do show ele comete essa: "Minha cerveja acabou, providenciem outra", como se fosse o próprio Bono. A platéia, quase toda composta de amigos e parentes, ficou num estado de "Ãn?" que seria engraçado se não fosse tão constrangedor.
E o loirinho ficou lá, com a lata vazia na mão, olhando em volta e esperando os roadies (que não existiam) ou as groupies (que também não existiam) ou o produtor da banda (que... bom, já sabe, né?) trazer a cerveja pra ele. Tá loki?
Sim, subir num palco, fazer um programa de rádio virtual, montar um selo, escrever para sites, tudo isso dá destaque sim, porque você tá mostrando sua cara e suas idéias e arcando com o preço disso, mas daí a ter brilho, reconhecimento, aí já vão outros quinhentos kilômetros. E essa distância se compõe de coisas como qualidade, oportunidade, coerência, adequação, dedicação, esforço, suor e um monte de outros detalhes que fazem toda a diferença, principalmente quando falamos de bandas numa cidade como GoiâniaTown que tem mais roqueiro que gente. Alguns dias, em finais de semana, temos dois eventos acontecendo, com quatro ou até mais bandas em cada um, então para se destacar nessa multidão de bandas, tem que ser muito boa. Do mesmo jeito para ser destaque como produtor de shows, como dono de selo num cenário nacional como o atual, em que tem tanta gente boa ralando bastante, tem que ter serviço prestado, tem que ter suor na engrenagem, não basta querer ser bom, tem que mostrar o resultado.
Mas infelizmente tá cheio de gente que acha que antes da responsabilidade de assumir o que se fez, vai surgir o reconhecimento pelo esforço empreendido (que nem sempre é tanto esforço assim, sejamos sinceros) e os louros (ou as louras) da vitória lhe serão gentilmente oferecidos. Tá viajando! Primeiro porque até ser reconhecido como uma estrela, com brilho próprio, consumindo o próprio hélio ou hidrogênio, tem muito pasto pra ser digerido, tem muito suor e esforço. Vai tomar pedrada, vai ouvir o que não quer, vai ser mal interpretado, vai ser cobrado em atitudes que não quer ter, vai ter que assumir compromissos chatos e muitas vezes burocráticos, enfim, não é só alegria.
Quantas vezes a vontade é dizer "Mermão, baixa a bola!" para gente que tá inchado sem necessidade, mas eu ainda acredito que não posso dizer tudo que penso. Nem sempre convém, e se eu fosse lá dizer para o loirinho da cerveja acabada que ele tinha que baixar a bola, ele ia me olhar com cara de "Te conheço?" e meu comentário não ia adiantar nada. Aí o metido, posudo, seria eu, achando que minha opinião tem importância pra alguém.
Acredito muito mais em constante questionamento e reflexão, mas isso pode ser coisa de quem tem mais de trinta e que já quebrou a cara uma porrada de vezes suficientes para duvidar quando as coisas parecem ir bem demais. Por isso sou chamado e acusado de ser marketeiro, mas realmente eu vejo minhas atividades de forma marketeira (pronto, assumi! rs) e com base nisso sempre querendo melhorar, de acordo com o que quero expressar e de acordo com o meu público alvo. Assim não fico acomodado achando que não existem mais maneiras de melhorar (e sei que existem milhões delas), sentado num trono fictício, me deliciando com uma vitória que ainda não conquistei. Quer prova disso? A ausência nesse texto de um tema que sempre abordo, mas que alguns leitores estavam sentindo que era incômodo, desnecessário e forçado. Ouvi, digeri (não é fácil, mas eu tento), refleti e vi que realmente não tinha necessidade de ficar sempre batendo na mesma tecla. Sei que preciso melhorar demaaaaaaaaaais em um monte de coisas, e não posso negar fontes preciosas de informação na hora de avaliar meu desempenho.
"Sucesso" só vem antes de "Trabalho" no dicionário, e mesmo sendo uma expressão velhusca, é verdadeira ao extremo. Então quem quer destacar, bota a cara na janela e grita, já consegue.
Agora quem quer brilhar, começa a ralar bastante, porque aí o caminho é mais difícil, e porque estrela cadente brilha, mas não possui luz própria, é só um pedaço sólido de algo pegando fogo por causa do atrito com a atmosfera; e para pegar fogo no espaço não é necessário muito esforço, basta cair bem rápido.
Nettü, valeu pelo argumento!
Eduardo, O Inimigo do rei - eduardoinimigo@gmail.com

Nouvelle Cuisine ou Pastel de feira?

Comer!

Tive uma namorada na época de faculdade que dizia que "melhor que comer, só ser comida", o que não deixava dúvidas sobre seu prazer tanto com o sexo, quanto com os prazeres da mesa. Comer realmente é uma experiência que merece tempo, dedicação e que sempre se define por escolhas, hábitos, prazeres, costumes, e muito de tudo isso por experimentações. Até porque "a fome é humilhante", já disse o poeta. Mas se formos avançar no tema da comida, vamos ver que esses hábitos e prazeres por vezes colocam pessoas em flancos distintos. Não que precise ser assim.
A cozinha francesa, por exemplo, que na década de 70 gerou a "nouvelle cuisine" como contraponto aos banquetes e cardápios intermináveis, pantagruélicos e exagerados.. Esse movimento, com seus defensores apaixonados, durou por uma década aproximadamente, quando no final dos anos 80 a cozinha francesa buscou um retorno às tradições, sem, no entanto, renunciar a alguns detalhes pertencentes a nouvelle cuisine. Facções diferentes que aprenderam uma com a outra. Integração.Em outro extremo temos o pastel, um lanche tipicamente brasileiro, que tem sua origem no "rolinho primavera" da culinária chinesa. Cabe comentar que o surgimento do pastel se deve aos imigrantes que precisavam se adaptar ao que existia de matéria prima no Brasil, e sua popularização se deve aos japoneses que aqui chegaram depois da Segunda Guerra Mundial. Precisando se passar por chineses, para driblar o preconceito e a discriminação, os japoneses em sua maioria foram responsáveis pelo surgimento de inúmeras pastelarias nas cidades onde aportaram. Daí para ocupar as pontas saborosas das feiras, foi um pulo.
Conheço pouco de cozinha francesa, e o que conheço se deve às artes e talentos do Luciano Bocão (batera do SANGUE SECO, chef e refinado enófilo também), que já me honrou com convites para várias degustações marcantes. Em especial me lembro de um Miolo de Alcatra com Ervas e Cogumelos, feito na casa das irmãs Camila e Aline para receber inimigos de outros estados, que por muito pouco me mata de gula. Mas certamente conheço com maior familiaridade as maravilhas de um pastel quente, sequinho e bem recheado, e guardo boas lembranças de tantas vezes que eu e Maurício Mota (vocal do HTS) pulamos o muro do Colégio Ateneu para comer pastel na feira logo pela manhã, com um farto copo de caldo de cana na banca da japonesa. Sem falar nas madrugadas terminadas ao redor do pastel inesquecível do Bar do Kuka, do tamanho de um travesseiro e regiamente recheado.Isso tudo dito por que se existem públicos para tipos tão distintos de comida, acredito piamente que existem públicos para todos os tipos de eventos que surgem em qualquer cidade. Gente que quer um evento sem filas, com lugar para sentar, temperatura adequada e som de qualidade; e gente que quer um evento sem nenhuma preocupação com o ambiente, porque o que interessa é a dedicação, a entrega, a ideologia e o som cru, sujo e na estratosfera, por exemplo. Já falei isso em outros momentos, mas acredito que muitas vezes ainda vemos equívocos por justamente se acreditar que alguém que goste do prato francês não vai gostar do pastelzão de carne apimentado. Mas se o grande contribuinte do processo de crescimento é justamente o contato entre situações aparentemente contraditórias e antagônicas! Se é justamente quando nos confrontamos com o novo que podemos perceber oportunidades novas, novas situações, sabores, amores, quereres e gostares, porque proibir-se de conhecer algo ainda alheio à sua realidade?
Na cena rock independente de GoiâniaTown eu sou um novato, ou um "new generation" como vi esses dias num site, isso porque nos anos que a cena rock floresceu eu estava me casando, trabalhando feito um loki, envolvido com outro mundo. Quando me envolvi com o rock, muito pelo viés do meu trabalho, e também pelo sonho de viver do e no rock independente, comecei a procurar pelas oportunidades de renda e lucratividade nos eventos do rock, e até por essa empolgação incorri no erro ingênuo de transparecer (passar uma imagem equivocada) que priorizava ou valorizava um lado da cena e denegria e desrespeitava o outro. Como se somente o Miolo de Alcatra pudesse me alimentar, e o pastel não me fizesse feliz e satisfeito. Quem viu isso, viu errado, ou quis ver errado.
Quando eu freqüentava o rock na cidade, muito tempo antes do Cantoria, muitos aqui ainda viviam longe de GoiâniaTown ou ainda usavam calções com personagens da Disney. Sou do tempo de ver Choque Cultural tocando na Praça Tamandaré, eu vi o Frenesi Precoce (que digievoluiu para o The Not Yet Famous Blues Band) tocando em "bar de burguês", assisti show do Quarto Mundo no Clube Itanhangá com as famílias sentadas na grama fazendo piquenique, briguei para conseguir K7 pirata do 17º Sexo do finado Mário Martins, e estava no Teatro Goiânia quando o Restos da Cultura Proibida tocou e no meio do show a máquina de fumaça pegou fogo e o Lenine urinou em cima, para apagar as chamas. Eu sou desse tempo, como disse o cabeleira (ou trepadeira, quaresmeira, sei lá) sou um "Velho", e nessas priscas eras não havia isso de "esse tipo de show" e "aquele tipo de show". Eram poucas as oportunidades de se ver uma banda tocando, então sempre que havia era uma oportunidade imperdível, e todo mundo se conhecia e todo mundo ia no show de todas as bandas. Eu posso estar romantizando minhas lembranças, mas é assim que eu me lembro.Semana passada eu fui a um show no CapimPub, do Afonsim (que era vocalista do Restos da Cultura Proibida), tido e reconhecido e valorizado como um lugar tosco e de shows toscos. Fantástico. Além das bandas que tocaram (Kundaline, Against, Ímpeto), aquele tanto de gente legal, conhecida, positiva, compõe a festa, faz a noite valer a pena. Isso porque valorizar esse ou aquele evento é só uma questão do foco que dirigimos nossa atenção, ou como diria a Gestalt-terapia, uma questão de "figura/fundo".
A tosquice de um show desses é só no ambiente, ou seja, no exterior, na aparência. A garra e dedicação dos caras, a felicidade de estar junto de gente boa, a alegria de estar ali fazendo o seu som sem pretensão nenhuma, só alegria e tesão, tudo isso é o que compõe o evento tosco. Tem público para ele? Aos montes! Domingo é dia de CapimRock, e sempre tem público, mas existe ainda desinformação e preconceito. E convencionou-se acreditar que o preconceito existe por parte daqueles que acham que o evento tosco é porcaria, e por isso não vão, não apóiam e se limitam a falar mal. Mas surpreendentemente existe muito preconceito de muitos que são do ambiente, porque vêem o evento como algo para "iniciados", e aqueles que não são "das antigas" são tratados como estranhos no ninho, com reserva, cautela e até distância. Nesse ponto um evento maior e um evento tosco são idênticos, porque quem não é da turma, fica de lado, no canto, sem espaço. Claro que isso não é comportamento padrão, mas de alguns destacados tacanhos que freqüentam e que existem em todas as tribos, que buscam preservar seus grupos porque tem medo do novo.A grande maioria das pessoas envolvidas em rock independente ainda possui, felizmente, a coisa adolescida de querer contato, conversar, trocar idéias, rir junto, e isso faz os eventos, shows e festivais uma celebração muitas vezes maior do lado de fora dos portões do que dentro dos shows.
Por isso não existe o dilema entre o roquefort e o pastel de pequi (se bem que eu detesto pequi), porque existem públicos para todos os eventos. Se a questão principal é o foco dirigido ao evento podemos perceber que os shows toscos querem diversão, integração, uma ideologia que valoriza o ser humano acima de qualquer coisa. Os eventos maiores visam além ou acima disso tudo a remuneração dos envolvidos, lucratividade, contas pagas e profissionalismo.. Não são antagônicos, mas complementares.
Como exemplo, vamos usar alguns itens de "Os dez mandamentos da nouvelle cuisine", elaborados em 1973 por Henri Gault e Christian Millau, e aplicá-los aos eventos rock independente.
1. Não cozerás demais – muitas vezes manter cru, direto, básico é o que basta para garantir a integridade.
2. Utilizarás produtos de qualidade – isso sempre, porque para o público que quer a banda barulhenta e destruidora tragam o HC-137, para os que querem técnica e poder de fogo usem o Macaco Bong, para quem quer alegria e dançar até cair coloquem o Shakemakers! Adequem-se ao seu público!
3. Não serás sistematicamente modernista – inventar moda por inventar moda não se justifica. O simples é o mais certo, então "algumas tradições precisam ser mantidas" (Manifesto Antropofágico da Semana da Arte Moderna).
4. Não usarás truques para melhorar tuas apresentações – seja verdadeiro com o que você pretende. Se pretende ganhar dinheiro, não existe motivo para sentir-se embaraçado com isso, afinal de contas as contas não deixam de chegar.
5. Serás inventivo – criativo para buscar parcerias, novas formas de satisfazer seu público, maneiras de trazer bandas de cada vez mais longe, multiplicar seu nome e credibilidade por todos os cantos.
Se temos o interesse de que o rock perdure e tenha longevidade nas nossas cidades, precisamos parar de picuinhas entre grupos e igrejas dentro da cena rock, e ao invés disso buscar formas de fortalecer ainda mais o movimento, buscando novos públicos, reforçando a imagem de eventos seguros e divertidos, desenvolvendo uma imagem forte.
Sexta feira, dia 10, conversava com o Léo Bigode no lançamento do CD do Rockefellers justamente sobre a necessidade de se levar o rock para as escolas, para o interior dos estados, realizar oficinas de formação de produtores de shows, oficinas de fanzines, porque existe uma multidão de adultos, jovens, adolescentes e pré-adolescentes que não sabem que existe rock independente, e que iam adorar saber isso. E passariam a freqüentar, montar bandas, criar fanzines, fazer shows, e o tsunami não pára!
No fim de tudo uma coisa tenho certeza, domingo 19 de março eu vou ao CapimPub, tem show do Sangue Seco, Rótula e Explícitos, com catuaba no palco e muitos amigos na platéia.
É dia de pastelzão quente e cheio!! E tá todo mundo convidado.
Eduardo, O Inimigo do rei - eduardoinimigo@gmail.com

Então eu não posso dizer que isso é uma merda??

Quem quer ser crítico? Não digo ser uma pessoa que tenha senso crítico, mas minha pergunta se refere a comentar shows e discos, tecer esses comentários que geram tanta confusão ou incenso, dependendo do lado que se atira.

Quem quer ser? Eu até gostaria, mas não posso, não tenho informação suficiente, mas tenho menos discernimento ainda. Isso porque acho que gosto de tudo, de forma meio esquizóide. Prefiro rock pesado, mais especificamente ainda punk rock, do tradicional, que ouvíamos nos anos 80 enquanto dançávamos na rua com a cara cheia de vinho barato. Não sou o primeiro a dizer que as opções e vivências da adolescência são marcantes e definitivas para uma vida inteira, nem acho que sou o segundo a dizer isso, mas definitivamente sou uma prova viva. Mas eu estava falando de gostar de punk rock, e acrescento que isso não me impede de gostar muito do som MPBístico "da floresta" do Los Porongas, do instrumental hendrixiano do Macaco Bong, do som inglês do Violins e da brutalidade eficaz do Ressonância Mórfica. E posso até estar ofendendo alguém com esses rótulos que usei, porque realmente não tenho muita noção.Esse é um ponto forte do problema: a minha inépcia em avaliar um show, ou um disco ou uma banda de forma crítica. Porque para ser honesto, eu sou raso demais para dizer qualquer coisa além de "gostei" ou "não gostei". E isso realmente não me autoriza o papel de crítico. Seria muito fácil para qualquer um dinamitar um crítico desses.
Por exemplo, se eu digo que "não gosto de Picolé de Nervo", alguém pode me perguntar porquê, e eu não ia conseguir desatar esse nó.Isso porque o crítico, de onde eu vejo, tem que possuir algo além do conhecimento vasto em música e assuntos congêneres. Fazendo uma apropriação não literal do que diz o "personagem" Lester Bangs em "Quase Famosos" ("Almost Famous" de Cameron Crowe), o crítico precisa ser impiedoso, e isso não é algo distribuído em cestos de brindes no fim do ano. Muitos até são impiedosos o suficiente para dizer "gostei" ou "não gostei" numa conversa de bar, comentando o show, mas o crítico coloca a cara na janela e grita isso para todo mundo saber quem disse. Tem que ter cojones, tem que se responsabilizar.
Responsabilidade. Essa palavra é muito importante para todo aquele que ousa se tornar crítico, porque tudo que ele disser será documentado e registrado como a opinião dele, e isso vai balizar todos os leitores dali em diante. "Lembra o que ele disse do cd do Allface?", e para sempre isso será a base em que muitos leitores vão se apoiar para decidir ler ou não mais um artigo publicado.Responsabilidade. Porque na situação de um crítico que conta com credibilidade, uma opinião desfavorável irresponsavelmente proferida pode detonar o trabalho de uma banda. E vejam bem que isso nos leva a uma outra questão importante, que dá nome ao texto; então não pode dizer que o troço é uma merda? Não pode. E pode. Talvez..."Mas eu achei uma merda!!". Mas isso não se diz do trabalho dos outros, é feio, é mal educado, e quem faz isso deveria ir pro castigo. Pode-se dizer tudo, todos os pontos negativos, oportunidades de melhoria, falhas, use-se o nome que quiser, mas que se tenha cuidado ao dizer isso, e nessa pequena distinção reside uma diferença enorme.
O maior problema que surge quando alguma crítica negativa aparece é o velho argumento de que "precisa respeitar, é o trabalho do cara, deu suor para fazer isso". Mas se o suor do cara só conseguiu produzir um material de terceira qualidade, duro de ouvir, ruim de agüentar, como você vai dizer que está bom e que ele está de parabéns? Impossível. Até porque se lembrarmos dos ratos de Skinner, ao se elogiar um trabalho meia-boca de alguém, reforça-se esse comportamento; e aí o sujeito não vai ter motivos para procurar melhorar o trabalho dele se já está bom. Vai ficar fazendo porcaria o resto da vida.E também não é porque alguém se esforçou para fazer que isso já garante imunidade á pancadaria. Se fez, suou, batalhou, mas alguém não achou bom, tem todo o direito esse alguém de falar o que pensa. E se o músico se sente atingido pelo comentário de alguém que não gostou, e começa a exigir tratamento diferenciado porque está fazendo arte, aí reside um equívoco. O sujeito quer o tratamento e a avaliação como arte, mas quer o lucro como produto. Uai?
Mas no fim das contas não importa tanto O QUE se diz, mas COMO se diz. Existem milhões de formas de sermos construtivos na hora de se avaliar o trabalho de alguém, e isso faz muita diferença para quem ouve. Uma coisa é se escutar algo que você pode deglutir, digerir e usar para melhorar, outra é tomar uma bolada na testa que somente abala sua auto-estima.Por exemplo, depois que comecei a escrever esses textos e participar dos sites como colunista (ou articulista, ou seja lá o que for o rótulo) já ouvi muita coisa legal e generosa, mas tomei muita pedrada também. Algumas pedradas foram elegantes, inteligentes e me fizeram pensar, rever minhas certezas, mas outras pedradas foram só isso, pedradas.
Me lembro de uma em especial de um guri - que eu não conheço pessoalmente - que se auto-denomina carniceira (ou bagaceira, ou enceradeira, sei lá, algo parecido com isso) que gentilmente me mandou um scrap me chamando de "Velho Nojento" e me mandando fazer algo que prefiro não repetir. É íntimo demais.Velho nojento. O que eu faço com uma informação como essa? Não posso – infelizmente – voltar aos meus vinte anos, tenho trinta e cinco e isso é um fato de realidade. Sobre ser nojento, ele não me ajuda ao não definir, e eu não sei o que poderia melhorar na minha higiene, ou no meu jeito de falar, ou na forma como escovo os dentes... diabos! Eu não sei porque sou nojento. E o enceradeira (ou carniceira ou bobageira ou bagasseira, não lembro) então me condena a sofrer por ser isso tudo e sem possibilidade de mudança. Pense em tamanha crueldade, e eu seguindo minha vida tentando não ser nojento, sem saber se estava conseguindo atingir esse objetivo.
Outro exemplo recente aconteceu na comunidade no orkut da Revista Bizz quando um participante chamou um evento Fora do Eixo (o Grito Rock, de Cuiabá) de "lixo". Se ele dissesse que a organização era falha (coisa que não foi), ou que TODAS as bandas fossem um desastre (o que não eram), essas opiniões – frise-se isso, são opiniões – deveriam ser respeitadas e isso poderia até gerar um debate acalorado, com pancadaria verbal, réplicas, tréplicas e por aí vai. Mas seria um debate baseado numa opinião pessoal, que o opinador tinha todo o direito de emitir. Mas quando ele diz "lixo", ele simplesmente desdenha, agride, ofende, tenta humilhar (coisa que não conseguiu) e parecer superior. Na verdade o ato só o rebaixa. Mas isso foi numa comunidade de orkut que prima pelas agressões, o que parece ser a brincadeira favorita deles, então releve-se.
Agora quando o crítico vai analisar um CD, por exemplo, que realmente envolve muita gente trabalhando, muito tempo de esforço, muita grana, aí é necessário muito cuidado. Claro que um crítico de música recebe muito mais coisa para opinar do que ele gostaria, e muito disso tudo é coisa que ele não gosta de ouvir, e precisa ouvir por obrigação. Isso realmente não facilita a atividade e a análise, convenhamos. Além disso, nem sempre tem tempo suficiente para fazer uma avaliação cuidadosa e balizada, mas precisa atender exigências de pauta e pressões do mercado capitalista (condenado por muitos, mas vivido por todos) da empresa em que trabalha. Dureza!E todo mundo tem seus preconceitos, suas manias, suas idiossincrasias e isso afeta diretamente o texto apresentado. Se eu sou solicitado a ouvir um CD de axé, já vou ouvir com o ouvido torto, por tanta garrafa e dança disso-ou-daquilo que já ouvi e sofri para agüentar. Mas a boa crítica coloca a opinião particular de quem escreve em segundo plano, nas sombras, alimentando o leitor de informações suficientes que o deixem curioso para ouvir o CD ou ver o show, porque essas informações são o que o leitor procura no texto. O comentário do Humberto Finatti, da Dynamite, sobre o show do Rockefellers no Grito de Cuiabá é um bom exemplo (aqui). Ele começa o comentário falando que não gosta do som que os cabeludos fazem, mas reconhece que o show é detonante, que eles são bons demais no que fazem e que alcançam e superam o que se propõe. Ou seja, qualquer um ao ler aquilo vai saber duas coisas: a primeira é que o Finas não gosta de hard rock cafajeste, e a segunda é que o show dos caras é tudo que precisa ser um show de hard rock cafajeste. Se isso não informa o público, nada mais vai informar.
O crítico então tem o papel de ser aquela antena que capta as informações e novidades (cada segundo mais acessíveis em tempos de inFernet) e apresenta com dados técnicos e que orientam ao seu público. Não se trata de ser guru, não se trata de ser dono da verdade, mas se trata de ser parceiro do seu público apresentando e incentivando o que é bom e já tem qualidade, e apontando aquilo que ainda não possui qualidade. Infelizmente vaidade interfere, e de todos os lados envolvidos (resenhistas, músicos, produtores, etc e tals) surgem atitudes babacas que poderiam ser melhor resolvidas com um bate-papo numa mesa de bar.
Respondendo à pergunta do título, poder dizer que é uma merda até pode, mas não precisa. Fala para ajudar, e isso gera muito mais resultado.
Eduardo, O Inimigo do rei