Me chamaram uma vez de "marqueteiro demoníaco", por eu trazer termos e conceitos do marketing e das ciências comerciais para o rock independente. Confesso que até hoje eu ainda deliro quando me lembro desse momento, e acrescento que eu adoro o termo, repitam comigo: "Marqueteiro demoníaco". Hummm.... é saboroso! Parece até nome de super-herói. E hoje vou acrescentar mais um motivo para me chamarem assim, porque novamente vou tratar do rock pensando no mercado, e que se danem os patrulheiros ideológicos, porque eu tenho pouco tempo de vida e muita coisa pra dizer.
.
No marketing existe um conceito chamado "Ciclo de vida do produto" com sinônimos os mais variados, mas que objetivamente diz que um produto nasce, cresce, aparece e fenece. Ou seja, tem tempo de vida e se ninguém faz nada, ele acaba naturalmente e sem deixar saudades (ao menos na maioria do público alvo, né?). Para contrariar esse movimento natural, os marqueteiros – demoníacos ou não – criam situações de renovar e revitalizar produtos, para acrescentar nova etapa de crescimento antes que surja a decadência. Quer um exemplo? O Gol da Volkswagen é o melhor exemplo. Líder em vendas há décadas, já passou por quatro "gerações", sendo que algumas delas foram apenas uma maquiagem, um "lifting" na cara do carro para parecer que algo de novo existia. Continua sendo o mesmo velho Gol de sempre, confiável, econômico, manutenção barata, bonitinho (bem "inho" mesmo), com o seguro caro bragarai e de volante deslocado pro lado. Ou você nunca viu que o volante do Gol não é certinho na frente do motorista, ele é mais chegado pro lado, o que gera uma posição não muito natural, mas ninguém liga, afinal de contas é o Gol, e melhor ainda se for um de uma nova geração.
.
Digo isso porque começo a me questionar sobre os rumos do Circuito Fora do Eixo. Motivos ainda não existem, mas "se eu sou muito paranóico, é porque sei que você quer me matar". Então mesmo que ainda não existam motivos reais e palpáveis, já começam a apontar tendências, sinais de fumaça, indicações tênues de que o produto pode estar chegando ao seu momento de revitalização. Semana passada fui entrevistado pelo programa "Independência ou Morte!" da Rádio Faap –
www.radiofaap.com.br – e ao me perguntarem quais os problemas eu via no Circuito Fora do Eixo, realmente me questionei pela primeira vez e falei com convicção e certeza no coração de que não via nenhum problema.
.
Imagino que nessa hora muita gente torceu o bico e acha que eu surtei. É verdade, não acho que o Circuito Fora do Eixo tenha algum problema estrutural até agora, posso estar desinformado, posso estar acompanhando os eventos de forma marginal, mas a verdade é que vejo que Circulação, Distribuição e Produção de Conteúdo caminham de vento em popa. Talvez não na velocidade que poderiam, mas numa velocidade que "nunca na história desse país" houve, com produtores e bandas fazendo barulho em todos os cantos do país, circulando, cruzando as distâncias, intercambiando, conhecendo gente e conhecendo gente como jamais foi feito com tamanha intensidade.
.
Dessa forma o Circuito não tem problema nenhum, atende a tudo que se propõe e supera em várias facetas. Mas não existe almoço de graça, nem perfeição, as trincas e fendas surgem subterrâneas e minúsculas, diminutas parecendo ecos falsos no radar, mas se não previstas podem se transformar em desastres irrecuperáveis. Poderia bancar a Cassandra e sair prevendo miséria, mas não quero chamar atenção com gritaria, mas sim com ponderações, fatos, observações e comentários os mais sensatos possíveis.
.
Por isso acho que o questionamento ao Circuito não é de todo ameaçador, tampouco de todo inofensivo. Porque senão vejamos, algumas bandas estão se destacando e circulando com bastante freqüência, alguns produtores estão potencializando suas iniciativas e alguns canais de comunicação estão saindo à frente com novas abordagens e mídias. Qual o destino disso tudo? O Fora do Eixo quer virar o Eixo?
.
Não demora surgir o patrulhamento ideológico cobrando que as bandas estão aparecendo na Rede Blob, por exemplo, e que assim estão traindo a essência do Fora do Eixo. Não demora surgir dedo apontado para aqueles que fizerem seus eventos com estruturas mega e com atrações de peso e porte, ainda que surgidos fora do eixo. Não demora alguém cobrar atitude (o que é isso, pelamordedeus?) sem que isso nunca tenha sido discutido.
.
A velha querela entre underground e mainstream é a base dessa preocupação, porque muitos ainda acreditam ser o pecado original da raça humana se uma banda quer ganhar tubos de dinheiro com sua arte. Muitos ainda consideram que a humanidade inteira deveria seguir os caminhos da arte pura e sem corrupção dos circos mambembes e dos artistas desconhecidos. Muita gente ainda acha crime misturar a palavra "dinheiro" e "rock" na mesma frase, então surgem essas atitudes de querer que o mundo inteiro se comporte de acordo com o livro vermelho de Mao ou coisa parecida.
.
O ponto é o seguinte, quando uma banda como o Vanguart aparecer no Faustão, tocar na principal rádio da cidade, vender centenas de milhares de CD´s, ou qualquer outro símbolo de sucesso comercial merecidíssimo que seja; como o Fora do Eixo vai lidar com isso? É essa a busca do Circuito? Favorecer a divulgação, circulação e produção de conteúdo visa "bombar" alguma banda, algum selo ou algum articulista e com isso produzir um produto vendável e de sucesso?
.
Levanto essa lebre porque antes que alguém acuse gente de sucesso (e de muito trabalho) como cínicos – porque usaram o Fora do Eixo para aparecer – ou como traidores – porque não mantiveram a pureza do ideal rebelde – eu penso que é muito importante deixar isso bastante claro. E talvez eu também esteja tendo uma visão errada da coisa, vai que acontece, né?
.
O Fora do Eixo tem um risco potencial maior que é de se tornar outra forma de segregação, criando um Movimento dos Fora do Fora do Eixo. Isso porque à medida que as bandas, que atualmente estão sendo trabalhadas, começarem a gerar resultados, vão também exigir mais trabalho e dedicação. E aí quem vai cuidar das novatas que estão chegando? Os produtores envolvidos com essas bandas que já conseguiram destaque vão precisar concentrar esforços nas atividades relacionadas a elas, até mesmo pelo retorno e rentabilidade proporcionados; e aí quem vai guiar, orientar ou acompanhar as que chegarem por último na festa?
.
Imagino que a prática vai mudar e as novas bandas não precisarão de tanto apoio, já que a cena estará mais consolidada, os canais estarão mais ágeis e tudo estará melhor e até mesmo mais fácil. Mas isso é uma forma de se ver e eu posso – novamente repito – estar redondamente errado.
.
Não é uma provocação nem um chamado às armas, mas somente uma dúvida que eu levanto, afinal de contas a maturidade do processo exige novos comportamentos e novas atitudes. Não vai ser discurso politizado que vai sustentar para sempre uma união nacional desse porte, até porque as práticas vão se alterar naturalmente no processo. Vaidades surgirão (se já não surgiram) e poderão inviabilizar parcerias. Questionamentos sobre interesses são naturais.
.
E aí, em algum momento, inevitavelmente vamos ter que nos preocupar se o Fora do Eixo saiu do eixo.
.
.
Há braços!
.
.